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A anunciada prisão de Lula

Segundo publicação nacional, pode acontecer que o juiz Sérgio Moro sentencie o ex-presidente Lula a uma longa pena de prisão nos próximos dias. Sem a mínima intenção de defender esta ou aquela bandeira partidária – até porque não sou filiado a coisíssima nenhuma – quero apenas refletir com você sobre o significado desse fato.

De antemão, a prisão vaticinada pela revista, embora um tema inserto na pauta do jornalismo, não é algo que se deva aplaudir. De certo modo, esse tipo de matéria publicada acaba funcionando como um tipo de profecia social que forçosamente deveria se cumprir. Isto não é bom para a justiça nem para a sociedade como um todo.

O exagerado holofote sobre o Judiciário também pode cegar a justiça ou, pelo menos, atrapalhar de alguma forma na prolação do tipo de pena e sua dosimetria. O símbolo da justiça está vendado porque não deseja ver nada, exceto os autos do processo. O julgamento deve ser imparcial, sem audição do grito dos acusadores do Judiciário e também sem os flashs dos paparazzis que transformam o juiz numa espécie de semideus.

Todavia, anunciada a pena de prisão de Lula, muitos serão os efeitos dessa sentença. Primeiro, teremos a condenação máxima em matéria penal contra alguém que dirigiu o País por dois mandatos seguidos e conduziu a sua candidata também por dois pleitos consecutivos ao Planalto. Logo, a prisão de alguém assim implicaria o presto reconhecimento que as nossas instituições democráticas estão de fato fortalecidas.

Para o Ministério Público e Judiciário, esse fato representaria o rompimento da corda do peso político que sempre se manteve amarrado a cada Poder no Brasil. Teríamos pela primeira vez uma noção bem clara da independência dos Poderes. Montesquieu saltaria do túmulo.

Como resultado desse fortalecimento, a régua desceria. Logo, podemos imaginar que condenações se multiplicariam numa escala geométrica. O nosso temor é que a espécie política seja quase extinta no Brasil ou, o que é pior, que essa condenação acelerada gere uma revolta na base, na própria população, que saia às ruas clamando por uma mudança que não pode mais ser vislumbrada nas principais bandeiras que antes coloriam as nossas praças e avenidas. Pode-se esperar o caos.

Mas pode ser também que todo o nosso contexto gere uma nova consciência nessa base e naqueles que tenham coragem de concorrer aos novos pleitos. Quem se candidatasse doravante, haveria de pensar duas vezes antes de se meter em encrencas com o dinheiro público. Bem, estamos falando de futuro, portanto, de imprevisibilidade.

De modo imediato, a prisão de Lula poderá mudar radicalmente os destinos do País, pois sua prisão implicaria arrancá-lo compulsoriamente da corrida presidencial, onde o ex-presidente ocupa o topo das pesquisas, segundo dizem. Mas, não é só isso: talvez essa prisão afete todo o partido que o apoia, de modo que vagaria candidato apto a ganhar a corrida ao Palácio do Planalto. E os demais partidos grandes? Também estariam de alguma forma afetados, pois a régua deverá atingi-los. Temer e Aécio estão na mira.

O desenho eleitoral de 2018 seria outro, qual não me perguntem. Mas, imaginemos também que Lula não seja condenado. Então, teríamos – segundo as pesquisas – Luís Inácio de volta à Brasília. O que esperar? Imaginamos que isso poderia desencadear uma série de medidas, que, embora legítimas, amarrariam novos pesos ao Judiciário e ao Ministério Público. Sem adentrar os meandros do que politicamente se pode fazer – até porque não sei – teríamos provavelmente o banimento do clã de Rodrigo Janot  no MP. Lista tríplice existiria para não ser considerada.

Viveríamos um cenário muito esquisito pós-prisão, pois o Brasil acabou de lançar na prisão seu ex-presidente mais popular no mundo, arrancando-lhe a chance de concorrer novamente no próximo ano, ao passo que teríamos um presidente atual que era vice-presidente em sua origem, chegando ao poder por um processo de impeachment, o mesmo tipo de processo que, ao mesmo tempo de tudo isto, também trabalharia acelerado para despachá-lo para longe do Planalto. É mole? Não. É muito complicada a situação do nosso país.

Enquanto isto, como andará a máquina administrativa, o Brasil exportador e importador? Como andará o Brasil das reformas estruturais que se desenham? Como estaremos vivendo num país onde todas estas coisas podem sobrevir de uma só vez? Esperemos os próximos dias e oremos a Deus pedindo luz sobre a nossa pátria.

 

 

 

 

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

 

 

Publicado no jornal O Liberal em 27 de junho de 2017.