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O golpe da eleição indireta

A vida política nunca morre, pelo menos nesta vida. Quando um partido perde uma eleição, imediatamente abrem-se os trabalhos preparativos para o próximo pleito. Repete-se o que assistimos durante a frustração de uma Copa do Mundo. Depois que a Seleção perde a taça, anunciam-se imediatamente as mudanças para o torneio futuro, troca-se técnicos, despede-se e contrata-se novos jogadores.

É mais ou menos o clima do Planalto. Com a aproximação do fim de jogo, PMDB, Temer e aliados debruçam-se sobre a nova fase política. Mesmo perdendo a chave do palácio, o PMDB não quer abandonar o poder, afinal de contas ele é a força mais duradoura da política brasileira nas últimas décadas. O PMDB manda no Brasil desde o tempo em que o “p” do partido era um sujeito oculto.

Então, ao tempo em que Temer precisa se defender para que, pessoalmente e sua legenda, não sofram muito com essa farra do boi, o presidente precisa transitar entre diretas e indiretas. Nenhum partido consolidado almeja eleição direta agora. Querem, sim, mas não já, pois se a pressa é a inimiga da perfeição na vida comum, na vida política pode representar a própria desgraça. PMDB, PT e PSDB, para citar os grandes, já fecharam pelo slogam: “Não às Diretas Já!”.

Quanto à eleição indireta, é o que mais agrada o remanescente político pós-Temer, inclusive o próprio PMDB, claro! Uma eleição indireta pode ser o maior acordão da nossa história. Teremos um presidente mosaico, uma espécie de colcha de retalhos, com limites e poderes claros, assim como algumas nações retalharam o mapa da África.

Eleger um presidente por via indireta pode legitimar um verdadeiro golpe na democracia. Voltamos ao tempo do colégio eleitoral, onde a vontade do povo passa a ser entendida como a vontade de um Congresso nada confiável. Como termos uma eleição indireta quando grande parte dos parlamentares respondem a inquéritos e processos?

O povo não pode ter pressa nesta hora, deve manter a mobilização e não aceitar a eleição indireta. Não traz nenhum benefício ao Brasil trocar Temer pelos amigos do Temer. Se Temer tiver mesmo de sair – e, neste aspecto, a Constituição deve ser aplicada ao Presidente de modo imparcial – vamos cumprir essa mesma Constituição quanto ao destino do País numa situação dessa. Com toda a crítica, chamem pela ordem o presidente da Câmara, Senado e Supremo. Não tem por que termos eleição indireta. Isso é retrocesso. Se não é golpe, é, pelo menos, meio-golpe.

E a questão das Diretas Já? Bem, acho que também pode ser uma furada. Precisamos voltar ao processo eleitoral regular. A Presidência precisa de um processo eleitoral normal e amadurecido. Ao meu ver, ninguém está preparado para concorrer às eleições presidenciais no momento. Por quê? Porque não é o tempo, estamos há uma ano da saída de uma presidente eleita, estamos agora preparando uma investigação para o atual mandatário. O Brasil está sem eixo. Qualquer pessoa que se apresente agora, por mais preparada que seja, chegará de modo extemporâneo, dentro de uma crise que pode até se estender para um mandato legítimo conquistado às pressas.

O povo precisa conhecer candidatos. E ninguém conhece candidatos no meio de uma situação dessa. O risco de o povo enganar-se é grande. Este é o histórico momento em que surgem os salvadores da pátria. Vigiemos! A família Castro assumiu Cuba com o discurso de construir um governo democrático, e olha aí o que temos! Leiamos a Venezuela, a Rússia. É melhor esperar. Essa pressa de eleger logo outro presidente não é ideia do povo. Com todo o respeito, essa ideia vem dos que estão na expectativa do poder.

A agenda do Planalto está ocupadíssima. Não é apenas a defesa de Temer, não. O Planalto caminha entre diretas e indiretas. Quem está no poder, não quer sair. Quem está do lado de fora, faz qualquer negócio para entrar. Então, um acordão por eleições indiretas pode ser apresentado ao povo como algo nosso, mas não é. Não interessa ao Brasil um presidente tampão. Não interessa, também, um presidente que suba agora pelo voto, porém, suba mesmo por uma aclamação popular emotiva e apressada. Nenhum desses modelos é bom para o Brasil. É bom que Temer seja julgado. Sendo culpado, abram-se os caminhos naturais à sua sucessão.

Eleições indiretas têm cara de golpe, é retorno à fase pré-democracia. Eleição direta é pressa perigosa.

 

 

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

 

 

Publicado no jornal O Liberal em 30 de maio de 2017.