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Temer por um triz

Temer balança. Ele chegou ao topo da montanha pelo mesmo furacão que arrancou Dilma Rousseff da cadeira presidencial. Chegou sem convencer ninguém, afinal de contas era o vice, e vice no Brasil não dá nome nem à praça. Milhões de brasileiros espreitaram a sua chegada. Agora, seu presente de aniversário na Presidência pode ser a porta de saída do Palácio da Alvorada.

A Ordem dos Advogados protocolou o pedido de sua saída forçada. Não é o processo da conhecida expulsória do serviço público. Não. É o pedido para que saia logo, sem honras nem méritos. Temer reclamou da inicial, afinal de contas, disse, foi a própria OAB que lhe outorgou a espada de ouro. Temer não reparou que a espada tem dois gumes.

Temer é constitucionalista dos bons, perdido nos meandros lamacentos da política. Sabe defender-se bem. Maneja bem a espada da Justiça, só precisa acertar o golpe. Teria Fachin usurpado da toga? Afinal, essa delação é coisa da Lava Jato? Por que a distribuição para o ministro? Temer está pensando nos pressupostos de toda ação judicial. Pode satisfazer-se nas preliminares, e enfim nem ver apreciado o pedido protocolado.

Renunciar, não renuncia, afirmou domingo à noite no Alvorada. Se quiserem, que o derrubem. Cairá como bom constitucionalista, mas, só depois da matéria julgada. Havendo recurso, ele entende do assunto, vai recorrer até o fim, quem sabe à Corte de Haia? Sei não, acho que a matéria não é para tanto. Dilma ameaçou, mas, Haia não foi dessa brasileira, nem de Temer,  pelo jeito. É bom mesmo que o Brasil continue em Haia apenas na lembrança de Ruy Barbosa, a nossa águia verde-amarelo.

Se a queda de Temer não se confirmar na marra por este impedimento, junho trará o julgamento eleitoral. O TSE julgará a chapa de Temer e Dilma. Confirmada, a queda será mais rápida, porque esses ventos não são políticos, são técnico-jurídicos, é o que esperamos, pelo menos. Cassada a chapa, o sepulcro político de Dilma será lacrado. Temer entrará no sarcófago. Fim de linha. Oito anos de inelegibilidade. Temer será um ancião de dias quando cessar o exílio. Dilma ainda terá chances.

Mas, será que Temer cai mesmo? Não acredito. O Brasil está vivendo na prática a política do menos pior. Estamos cansando dessa novela maligna da corrupção. Caiu um, caiu outro. Afinal de contas, segundo noticiou a imprensa ontem, um em cada três parlamentares eleitos no Congresso teve dinheiro da JBS. Vai fazer o quê? Não existem santos no Congresso. Nenhum. Existe o baixo clero, aqueles parlamentares cuja santidade existe devido à pouca e nenhuma influência que têm. É questão de oportunidade e conveniência. A meu ver, todos roubariam se tivessem chance, e os que pouco levam, levam, no mínimo, o troco da corrupção.

O momento político está exaurido. O Supremo Tribunal Federal também está no olho do furacão. Pela primeira vez na história, ministros da corte máxima são achincalhados. É difícil julgar. Feliz foi Zavascki que já voltou pra casa! Esse sim está livre das nossas intempéries. Fachin luta bravamente, mas não tem unanimidade. Sua decisão de preterir a Segunda Turma deixou essa turma inconformada. Pela primeira vez, também, encaminhar julgamento ao Plenário tornou-se sinônimo de afronta entre esses onze ministros.

Temer balança. Está por um triz. Agora, cair mesmo, acho que não. Estamos mais perto de uma eleição. Mexer com isso pra quê? Quem vai assumir o lugar dele? Rodrigo Maia? Inocêncio Oliveira? Haverá eleição indireta? E se pegar a moda da Diretas Já, quem será o salvador da pátria? Quem? Existe algum político brasileiro não corrompido que consiga passar pelas plenárias?  Digam-me o nome, que vou redobrar as orações por ele.

Segundo minha modesta opinião, se as acusações se confirmarem, Temer deveria ser processado no Supremo pelo crime de responsabilidade, mas sem essa pressa da nossa cultura de impeachment. Depois, com trânsito em julgado, a ação no STF teria seus desdobramentos. Por que penso assim? Porque não podemos esquecer a economia do país. Agora que o Brasil está entrando nos trilhos, depois da devastação do processo Dilma. Parar de novo a nação, não resolverá a questão da nossa endêmica corrupção, mas, prejudicará a gente duplamente.

Afinal de contas, a situação não é pessoal apenas, não é só de Temer. Nossa economia está convalescendo. Há milhões de desempregados. Segurança, saúde e educação fraquíssimas! Todos nós estamos por um triz.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

 

Publicado no jornal O Liberal em 23 de maio de 2017.