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EUA e ameaças de guerra

Os olhos do mundo estão sobre o Oriente. Desde que Donald Trump assumiu as rédeas da Casa Branca, a coisa não ficou assim tão fácil para velhos ditadores, a exemplo de Bashar al-Assad, Kim Jong-um e o próprio Putin, cujo governo de democrático não possui nada.

Curiosamente, um estudo sobre o mapa da zona de conflito da Terra não revelará nada de novo. Desde que o mundo é mundo, essas regiões hoje ocupadas pela Síria, Irã e Iraque concentram a história de grandes guerras. Uma leitura rápida de escritos antigos, e eis ali uma zona de conflito interminável. Ali, onde segundo a Bíblia, Caim matou Abel, a terra continua clamando por sangue e justiça.

O mundo evoluiu bastante no Ocidente, todavia, a vida oriental não é muito diferente da Antiguidade para muitos povos desses espaços geográficos. Milênios antes de Bashar al-Assad existir, ditadores já estendiam suas varas de ferro sobre esse pedaço de chão. Nabucodonosor. Ciro. Alexandre. Dario. São estes alguns nomes que logo se apresentam para informar que são os legítimos possuidores da terra, não somente dessas onde construíram seus impérios, porém, do mundo inteiro a conquistar, segundo pensam.

Como parte de um conflito existencial, que nenhuma teoria freudiana aplicada à geografia pudesse resolver, a coletividade do mundo parece não querer jamais cortar o cordão umbilical. Na verdade, a resistência parece localizada, como se o berço do mundo não admitisse jamais o parto, tampouco a independência das nações que se fortaleceram em terras próximas e distantes daquele epicentro da explosão geográfica da humanidade.

Temos a impressão que o mundo parou na terra de seu nascimento. Montanhas e mares parecem funcionar como falsa ilusão da existência de outros povos cuja mentalidade e forma de viver diferenciam-se largamente do que existiu no princípio ali como modelo único. O rio Eufrates está secando, mas ainda está ali. A enfeitiçada Babilônia perdeu seus jardins, porém, continua no mesmo solo.

É claro que as fronteiras mudaram. A história muda. A geografia também. A Síria atual não coincide com a nação dos tempos bíblicos. A tentativa de alguns teólogos de tentarem encaixar velhas profecias do Antigo Testamento no atual desenho político dessas regiões é algo duvidoso. Grande parte das profecias daquele tempo foram vaticinadas durante o período do cativeiro judeu, vale dizer: por Babilônia e impérios medo-persa. Essas profecias falam de uma Síria contemporânea daqueles judeus. Mas, é claro, se você ler literaturas de guerra – mesmo desse gênero religioso profético – muita coisa pode coincidir, porque inevitavelmente falarão de violência, saque, morte e outros temas comuns.

O Oriente Próximo é uma caixinha de guerra, está sempre disposto a explodir. Parece sofrer de um mal típico das parturientes. Gerou o mundo, mas deseja matá-lo. Não admite que seus filhos cresçam. Não admite que tenham outra fé. Então, se esses filhos – já considerados ingratos, pagãos e irreverentes – falarem em medidas extremas, a guerra começa rapidinho. Não se assuste: a mãe das nações não quer perder nenhum de seus filhos para o cristianismo ou qualquer outra fé. O berço do mundo pede reverência, mas, infelizmente, não podemos obedecer.

Temos outra leitura, indispensável leitura: os regimes de governo da terra-mãe são em regra ditatoriais. Nunca concordaremos com Bashar al-Assad. Nunca  acharemos correto que refugiados padeçam como vêm padecendo sob esse governo tirano. Jamais concordaremos com Putin. Nunca esqueceremos o modo como tem se portado ao longo dos anos, como deixou morrer asfixiados seus próprios irmãos num submarino. Nunca concordaremos com o terror que implantou na Rússia para se perpetuar no poder. Recente medida de Putin proíbe a existência legal das Testemunhas de Jeová, talvez motivado pelas declarações de fé desse grupo, que em outras nações livres podem conviver tranquilamente com a sociedade. Politicamente, a leitura do Oriente Próximo aponta uma casta de ditadores. Então não concordamos.

A ameaça de guerra americana tem consistência. Embora jamais concordemos com a guerra, não podemos deixar de considerar que, em casos extremos, a guerra pode ser um caminho para a paz. É por esta razão que temos polícia, onde, numa análise em miniatura, podemos valorar a importância da repressão. Que Deus nos livre da guerra!  Mas, antes, livre-nos de governos ditatoriais, que seguem matando todos os dias sob o manto de uma pseudolegalidade.

 

 

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

 

 

Publicado no jornal O Liberal em 25 de abril de 2017.