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Brasil, sem teto e sem chão

Pensando hoje na situação do Brasil, lembrei da poesia de Vinicius de Moraes. O Brasil está se transformando numa pátria muito engraçada. Ressalvadas as críticas, o povo brasileiro ainda acreditava que o país tinha a cobertura do Congresso, mas agora sabemos que a Nação não tinha teto, não tinha nada. Importantes nomes da República – para não dizer quase todos – estão sendo entregues, delatados, negociados por penas menores nesse leilão processual.

Brasil, uma pátria muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. E a gente pensando que além de teto a casa tinha uma base, e agora, estarrecidos, descobrimos que ninguém podia nela entrar, não, porque na casa não tinha chão. Pelo contrário, o Brasil é um grande abismo cavado há dezenas e dezenas de anos. É um tipo de mina exaurida: foi-se o ouro, ficou a mazela, ficou a doença, ficou o buraco. E nunca é tarde lembrar que estamos falando apenas de uma mina, a Odebrecht, mas existem centenas de outras igualmente exauridas e a exaurir.

O resultado de uma casa sem teto e sem chão é a insegurança dos que pensam em continuar vivendo num lugar assim. Sem chão, ninguém pode viver. Sem-teto, sempre vivemos, organizados ou não, agora, sem chão, é mesmo coisa impossível. Toda nação séria precisa confiar que tem uma base territorial sólida, onde estão guardadas as suas riquezas. Estou falando neste sentido aparentemente figurado, porém, objetivamente, é a pilhagem das nossas riquezas que nos deixa sem essa base, sem a segurança que precisamos ter enquanto cidadãos neste país.

Não temos como ter sossego num Brasil devassado. Não temos como descansar, porque as paredes falam de privacidade e segurança, seja quando estamos vigilantes, seja quando dormimos. Mas descobrimos agora que no Brasil ninguém podia dormir na rede porque na casa não tinha paredes. Era tudo falso. Era tudo oco. Isto é trágico! O Brasil é um país com um parlamento apodrecido, governado pelo mesmo clã e julgado por afinidade. “Dormir na rede” nos fala dessa proteção perdida, de necessidades básicas que só podem ser supridas quando garantida a individualidade de cada cidadão. Mas, sem paredes, uma nação não passa de um campo de refugiados, que perderam a garantia da própria dignidade. Parece poesia, mas isto é uma grande verdade.

Logo uma nação sem teto, sem chão e paredes revela-se um espaço desumano, incapaz de prover a mínima condição de vida aos seus cidadãos. “Ninguém podia fazer pipi porque penico não tinha ali”. Dura realidade do nosso povo, onde as condições sanitárias são absurdas, com esgoto a céu aberto e carência de água tratada. Grandes cidades, como Belém, ainda recebem águas que correm em cancerígenos canos de amianto sob suas ruas, igualmente mal cuidadas. Maus políticos são a desgraça desta nação, só perdem mesmo para os anátemas clérigos capazes de roubar em nome de Deus.

Não obstante tamanho caos, ainda há políticos fariseus que enaltecem esta nação roubada. Ouça as entrevistas de alguns deles, e conclua que dizem que trabalham com muito denodo. Sem dúvida, temos dois brasis, um real, outro fantasiado. Na prática, politicamente considerando, o Brasil é um país sem teto, sem parede e sem chão. No entanto, há quem afirme que a nação era feita com muito esmero, “na Rua dos Bobos, número zero”. Abaixo, vou deixar a letra de Vinicius para você conferir:

Era uma casa muito engraçada/ Não tinha teto/ Não tinha nada/ Ninguém podia entrar nela, não/ Porque na casa não tinha chão/ Ninguém podia dormir na rede/ Porque na casa não tinha parede/ Ninguém podia fazer pipi/ Porque penico não tinha ali/ Mas era feita com muito esmero/ Na Rua dos Bobos/ Número Zero.

 

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 18 de abril de 2017.