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CARNE, MÍDIA E TRAVESSEIRO

A operação Carne Fraca tem dado o que falar. As principais revistas do País dedicam esta semana para debater a questão, com ênfase no grande prejuízo da economia nacional e internacional. Bem, vamos conversar hoje sobre este tema por três ângulos. Comecemos por esse mercado de produção de carne.

A formação de grandes centros urbanos opera um certo mistério em torno do seu abastecimento. À proporção em que a população se afasta do meio rural, a gente perde gradativamente a noção sobre rebanhos, abate e abastecimento. Lembramos da época quando controlávamos a criação animal. Em casa, por exemplo, a gente só comia galinha “do quintal”. As famílias controlavam todo o ciclo de produtivo, desde a produção de ovos até o abate das aves que estavam prontas para a alimentação da família.

Lembramos com remorso da antiga cena de matar porcos nos quintal de casa. Quantas vezes, fui acordado cedinho com os gritos agonizantes desses animais, terrivelmente mortos perante o olhar curioso de crianças assustadas. A gente fazia tudo: corria atrás do frango para o abate, amarrava o porco, esquentava a água na fogueira, depenava, fazia a sangria, retalhava o animal, vendia e comia. Em Vigia, pobre só comia carne de gado no dia do Círio. Havia apenas dois açougues e alguns ambulantes que vendiam seus produtos em carros de mão estacionados na frente do Mercado Municipal. Hoje é bem diferente. A gente vai ao supermercado e, como num passe de mágica, existe “carne” aos montes. A carne tornou-se um produto para nós assim quanto é o pão e o café, mas, ali temos um animal.
A crítica que hoje recai sobre a Polícia Federal diz respeito a um provável excesso durante a operação Carne Fraca. Bem, não tenho opinião especializada sobre este assunto, até porque também me alimento da mídia, e aí a gente nem sempre sabe de que lado está a verdade. Porém, uma coisa é certa: talvez a polícia precise agir mais discretamente, sem muita publicidade, o que reconheço também que não é fácil. Hoje, é muito difícil a gente escapar de vídeos e áudios. Em todo canto, somos espreitados. Agora, tecnicamente, o trabalho policial é mesmo um trabalho discreto, aliás, isto chega a ser o cerne, a essência da atividade policial.

Sobre a questão do nome das operações. Tecnicamente, o processo público nasce com uma autuação, vale dizer, a reunião de papéis – hoje virtuais – que recebem um número. É assim com o processo civil, administrativo, fiscal e trabalhista. Não pode ser diferente em matéria penal. À luz do Código de Processo Penal, basta isso: o número, o que me parece mais favorável ao princípio da isonomia. De outro modo, as ações judiciais também seriam nominadas. É claro que a questão de batizar suas operações não é exclusividade da polícia brasileira, outras nações também fazem assim. Resta saber se vale a pena continuar.

Acredito que o grande complicador da publicidade de algumas ações policiais seja mesmo o resultado imprevisível que isso possa causar, além, como já dissemos, de ferir a essência de discrição de qualquer atividade investigativa. Estamos cansados de ouvir reverberar a máxima constitucional sobre a inexistência de culpados até o trânsito em julgado de uma sentença condenatória.
No caso da carne, o que temos é uma investigação policial, abertura de inquéritos, expedição de mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão, e outras providências. Em outras palavras, mesmo forte e contundente, temos apenas o começo de uma grande jornada de persecução criminal cuja verdade será confirmada ou negada em tempo oportuno.

Até a prolação de uma sentença irrecorrível, não temos culpados. E outra: em havendo culpa, essa culpa seria de pessoas, nunca de máquinas, mercado nem de bois e frangos. Assim, a operação Carne Fraca pode culminar em reprovação de pessoas físicas e jurídicas, jamais da economia de um país, jamais do mercado de empregos, jamais da boa tecnologia que alcançamos, que nos legou um excelente patamar em níveis internacionais. Agora, a culpa é da Polícia Federal? Não, se a investigação não corre em sigilo.

A notícia alimenta a imprensa. A Internet é um mar de tsunamis. Ondas como essas se espalham velozmente, sendo levadas pelas pessoas que assistem à sua chegada, que acrescentam mais material e velocidade ao que em sua origem talvez não fosse tão devastador. É como rasgar um travesseiro de penas sobre uma montanha e depois tentar ajuntar cada pena. Não dá. Palavra lançada não volta mais. É provável que exista alguma carne forte nesse mercado, mas agora a carne é fraca.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 28 de março de 2017.