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FERMENTO NA CARNE

Ouvimos falar constantemente sobre a importância da disciplina em todas as áreas da nossa vida. Em casa, no trabalho e nos estudos, em todo espaço precisamos ser disciplinados mesmo para que a obra das nossas mãos prospere. Isso começa pela nossa vida pessoal, foro íntimo, esse lugar recôndito, nossa oficina interior. Os ganhos de uma vida disciplinada estão aí na História para a gente conferir.

A Operação Carne Fraca, lançada semana passada pela Polícia Federal, mostra-nos quanto a falta de disciplina pode prejudicar fortes empresas e até uma nação inteira. Exageros à parte, como comento adiante, o prejuízo dessa “fraqueza” de frigoríficos é milhões de vezes diametralmente oposta ao fato falho em si mesmo, sem referencial. O prejuízo teria chegado a bilhões de reais num único dia. Queda nas bolsas. Boicote nacional e internacional. Desemprego. Falência moral. Bem, são muitas consequências ruins por causa dos achados da Polícia Federal.

Talvez seja por causa dessa desproporção entre causa e efeito que alguns internautas acusam um certo complô entre Polícia Federal e Ministério Público cujo objetivo seria favorecer os Estados Unidos. Bah! – como diriam os quadrinhos – nunca li algo mais sem nexo em tempos recentes! Mas, agora, entendo a razão deste tipo de raciocínio exagerado: a desproporção entre causa e efeito nessa operação policial é realmente grande.

Mas, para não fugir do tema, tudo começa com a tentação de ceder à alguma coisa aqui e ali. Começa com a tolerância ao erro, por mínimo que seja. Hoje, nós temos uma verdadeira teoria sobre uma certa conspiração contra políticos. Desde que a Lava Jato deu certo, as mídias sociais têm criado tantas inverdades que fica até difícil navegar nesse mar de pinóquio. A defesa de acusados rebate diariamente a flecha contra seus acusadores, quase como acontece no no Direito do Trabalho quando o reclamado vira reclamante. Basta uma foto. Pronto! Entram em cenas os doutores na criação de legendas, e rapidamente cria-se o que nunca existiu.

Pergunta-se, porém: por que uma pessoa que não deve nada temeria em responder a algumas perguntas de uma autoridade policial? Afora certo prejuízo moral por um chamamento indevido, entendo que os esclarecimentos seriam suficientes para apagar a primeira impressão. Mas no Brasil, hoje trava-se uma verdadeira batalha pelas mídias pelo não comparecimento de quem é chamado a depor, sob a alegação de um plano maquiavélico da polícia, do Ministério Público e até do Judiciário.

Jesus ensinou que basta um pouco de fermento para que a massa levede. Em sã consciência, não acredito que toda a produção de carne no Brasil esteja comprometida. Entendo a gravidade da situação. Sei que se trata de crime, porque tais empresas lidam com o abastecimento nacional. Há normas rígidas sobre esse setor, assim como há leis rigorosas para as empresas de captação, tratamento e distribuição de água, pois, se não cuidam bem de seus misteres, podem comprometer a vida de muitas pessoas, até de uma população inteira. Todavia, pelo que sabemos, temos um achado pontual. Mas o prejuízo já está materializado.

Por causa de uma cabeça de porco, muitas portas de emprego podem ser fechadas. Problemas no mercado interno. Problemas no mercado internacional. Trata-se de multinacionais, onde, naturalmente, flui muito dinheiro, onde o lucro está na casa dos milhões e milhões. Mas, por favor, entenda, não estou defendo os frigoríficos – até porque não como seus produtos, como peixe –. Minha análise segue este contraponto para discutir a desproporção entre o fato descoberto e as suas consequências. Vejamos quanto só um pouco de fermento da corrupção pode estragar tudo, levando até pessoas à prisão. É por isso que temos de nos contentar com o nosso quinhão. Ganha pouco? Converse com o seu patrão. É funcionário público? Faça greve, lute por seus direitos. Mas não cedamos à ideia de pôr um pouquinho de fermento na nossa porção.

Eu fico impressionado com os resultados desastrosos que uma pequena atitude pode causar. É assim no trânsito, no trabalho, em casa. Temos de ser pessoas disciplinadas. Não vale a pena querer ganhar o mundo, ele não é e jamais será nosso. Vamos nos abster de todo fermento dos fariseus, na lição do Mestre. De repente o bolo cresce, mas acaba explodindo depois. Vamos nos contentar com os nossos pães asmos, desprovidos do velho fungo da corrupção. É melhor. Deus abençoa esse pão, e a casa nunca cai.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 21 de março de 2017