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A ORDENAÇÃO DE MULHERES

Quero aproveitar o Dia Internacional da Mulher, celebrado amanhã, para tocar num ponto muito importante quando se fala de conquista feminina. Sábado, em nosso programa de rádio, já fizemos rápida referência a este assunto, pacífico para poucos, polêmico para muitos.

Bem, de plano, preciso dizer que a nossa abordagem é quanto ao ministério sacerdotal cristão, o que, naturalmente, divide-se em dois grandes ramos: católico e protestante. Sobre a ordenação de mulheres à função de sacerdotisas católicas, eis um tema muito rebuscado, infinitamente mais do que qualquer discussão protestante. A Igreja Católica é um verdadeiro estado, no que concerne à produção e observação de normas. Leis internas existem aos milhares. Códigos. Bulas. Encíclicas. Não é fácil. A Igreja Católica está assentada sobre o fundamento do sacerdócio masculino celibatário. O Papa Francisco há lançado algumas fagulhas sobre esse feixe de lenha seca, porém, não têm sido poucos os baldes de água fria lançados sobre o tema pela poderosa ala conservadora da Igreja.
Quanto aos protestantes, haja vista sua distribuição política descentralizada em grande parte, fagulhas têm sido acesas aqui e ali, não obstante baldes de água fria também não faltem à proporção que subimos ao cume das grandes denominações. Igrejas evangélicas de governo patriarcal, como Universal, Graça e Mundial, não mostram o mínimo interesse na ordenação de mulheres ao pastorado. Já em outras, de governo misto, como a Assembleia de Deus, o tema é igualmente hermético quando a discussão acontece em suas convenções de pastores em nível nacional. Afora esses grandes sistemas, a ordenação de pastoras acontece livremente em igrejas de um templo só, em alguns casos quando a própria líder é a fundadora do trabalho que preside, bem como em algumas convenções menores.

Antes de adentrar no mérito da questão – se é correto ordenar mulheres ao ministério pastoral – é preciso salientar que não concordamos com a simples elevação da mulher a esse posto em função do casamento com pastores. Neste caso, entendemos que a condição conjugal não credencia tal coisa, pelo contrário, banaliza a função. Digo isto porque observamos uma crescente “ordenação” de esposas de pastores ao ministério, ocorrendo às vezes em termos oficiais quando há previsão no estatuto da respectiva igreja ou convenção. O arranjo fica claro quando percebemos que esse reconhecimento só ocorre com a esposa do pastor, não estando a função disponível a outras mulheres do rebanho. No caso da Igreja Mundial e outras denominações em regime episcopal, esse tipo de abertura permite o surgimento de “bispas”, “apóstolas”, dependendo da nomenclatura que recaia sobre o titular homem. Por minha análise, enxergo nisto apenas uma manifestação do poder quando o homem, querendo deixar claro que não somente ele, mas sua esposa também, é quem mandam na igreja.

Todavia, os que advogam que a mulher não deve exercer o sacerdócio – católico ou protestante – baseiam-se no fato de Jesus não ter ordenado mulheres ao apostolado, tampouco Paulo. Então, se o Nazareno escolheu apenas homens, tendo Paulo escrito que é vergonhoso uma mulher falar na igreja, devendo permanecer em silêncio no templo e tirar suas dúvidas apenas no recôndito do lar, logo – dizem – não deve haver ordenação de mulheres. Ora, isto requer uma interpretação contextualizada.

É necessário entendermos que a sociedade dos tempos bíblicos era patriarcal, onde, com o passar do tempo, o primogênito – homem – de uma família assumia a direção do clã. Esta era a forma natural de transmissão da linhagem. Assim foi organizada a nação de Israel: doze famílias, doze tribos, doze patriarcas. Jesus não iria mudar isto, aliás, se fizesse, não teria como ser recebido. Por este motivo, ele escolheu doze apóstolos para auxiliá-lo. De igual sorte conduziu-se a igreja dos primeiros séculos. No entanto, em nenhum momento a Escritura nos apresenta uma norma proibitiva da ordenação de mulheres.

Logo, é fácil concluímos por que nem Jesus nem Paulo ordenaram mulheres à função de presbítero ou de bispo, terminologia equivalente à atual função de pastora. Outra coisa bem diferente é afirmarmos dois mil anos depois que a organização social daquela época se transfere automaticamente para nós, ignorando todo o processo de evolução social e toda a maturidade que alcançamos neste segmento do tempo. É assim que essa verdade daquele tempo precisa ser contextualizada hoje. Parabéns, mulheres! Vocês estão aptas a ocupar todos os postos aos quais tenham vocação.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 7/3/2017