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MATINTAPERERA AGONIZA

Hoje, gostaria de conversar com você sobre o desaparecimento de certas lendas da Amazônia. Não vou defender nem derrogar algum fundo de verdade na existência deste ou daquele caso. Há quem morra de rir quando pensa nessas “crendices” e outros que têm colapso de raiva perante incrédulos. Vamos tratar de folclore e sua sobrevivência na sociedade amazônica do século XXI.

Se você mapear a manifestação de certas lendas da Amazônia, verá que elas minguam à medida que se aproximam das cidades. Sem poder negar, veremos que esses relatos parecem concorrer com o chamado progresso, ou vice-versa. Matintaperera, Boto e Fogo-fátuo não resistem ao desenvolvimento mínimo que temos alcançado. Vamos começar pelo último.

Ainda me lembro bem das histórias do Fogo-fátuo em Vigia. Quem andasse sozinho durante a noite poderia ser pego. Na solidão daquelas ruas estreitinhas, caminho do cemitério, de repente uma labareda emergia do chão. Em questão de segundos, armava-se uma tocaia. O jeito era correr. Jeito nada! O fogo também corria. Ele tinha o poder de se locomover no espaço sem revelar o itinerário. Podia aparecer alguns metros à frente de seu alvo e misteriosamente surgir no caminho oposto do fugitivo. Encurralava sua vítima.

A chegada da luz elétrica apagou o Fogo-fátuo. De repente, as ruas das cidadezinhas e vilas já não eram tão escuras. O fenômeno da combustão espontânea de elementos orgânicos em terrenos baldios e cemitérios passou despercebido. Chegando a luz, chegaram também outras coisas iluminadas. Chegou a televisão, com um clarão mais intenso que qualquer fogo-fátuo. O mínimo de saneamento e terraplenagem também ajudou nisso. Agora, estradas de terra sucediam antigas veredas lamacentas. Chegou a bicicleta. Passou o ônibus. Chegou a moto. E com ela a velocidade suficiente para ultrapassar qualquer fogo-fátuo insistente. Acabou a lenda. Apagou-se o fogo.

O Boto ainda meio sumido. Há décadas não põe o pé na cidade. Primeiro, porque só anda em rios limpos. Igarapé-esgoto não é com ele. Metido. Gosta de andar alinhado. Namorador ribeirinho, não tem o mínimo papo para ganhar as meninas da cidade. O Boto tem horror a shopping e celular. Jamais anda de ônibus. Avião, nem pensar! Ele ainda dá umas voltinhas no hinterlan, ou melhor, no interior, como prefere. Porém, mesmo lá, a coisa tá séria. O barulho da TV atrapalha seus passeios noturnos. Namora pouco. Pobre rapaz! Raríssimas moças acusam-no de defloramento. “Foi o Boto!”, a frase que disparava sua autoestima, praticamente não se ouve. Não por falta de necessidade. É para evitar surra maior. O pai não acredita mais nisso desde que Jacques Custeou viajou por estas águas. Desvendou as cores do cetáceo. Branco, cinza e cor-de-rosa.

Mas eu me lembro das histórias que me contaram dos botos do Afuá. Perigosíssimos! Antes que alguém discutisse homofobia, já se falava nisso. Contaram-me que certo rapaz vivia sempre isolado. Praias desertas. Arredio. Só chegava de noite em casa e mesmo assim não falava com ninguém. Misteriosamente, o jovem caiu enfermo. Em poucos dias, morreu. Corpo velado em palafita à margem de igarapés. De repente, para terror da família, bem na hora que saía o cortejo, um cardume de botos entrou em cena (não achei coletivo melhor). Dezenas, centenas, quem sabe até milhares desses golfinhos singraram as águas uivando. Pareciam chorar a morte de um amante. Rodearam a casa em coro e acompanharam o defunto até o cemitério inundado. Que cena! Cena que ficou para trás. Imaginário. Lenda que vai ficando distante do barulho da voadeira, sufocada pelos berros de uma distante Carminha.

A Matintaperera (prefiro assim) agora assobia fraco. Semelhante ao compadre Boto, não quer nem ouvir falar de cidade. Foi aqui onde perdeu as forças. Assobiou tanto que enfraqueceu. Desesperada, para salvar o fado correu pro mato. Mas a sorte não parece estar com ela. Além dos bichos, tem muita coisa assobiando no interior. “O principal deles é um tal de celular!”, desabafa. Está difícil tomar marido alheio. Rapaz solteiro, pior ainda. Todo mundo anda ocupado com esse estranho aparelhinho falante. Alguns varam a madrugada conversando. Quando cansam de falar, acessam a internet. E, na hora de dormir, deixam o bichinho cantando música. Daqui a pouco, o Sol já nasce, e tudo estará acabado. Matinta não pode voar de dia. Precisa escapar depressa. Até porque – logo, logo – o tal radinho vai despertar todo mundo. Nada de galo ou passarinho. É a morte da Matinta.

Rui Raiol é escritor (www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 6/2/2017