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O LABIRINTO DE DONALD TRUMP

No mundo cada vez mais virtual e globalizado, Donald Trump pretende cumprir sua promessa de campanha e construir um grande muro na fronteira com o México. Nada de tecnologia virtual. Nada. Apenas aço e concreto. Apenas a objeção de um homem cuja visão de mundo parece restrita aos metros quadrados do seu país.

É de todo lamentável! Construção de obras assim custam muito caro aos cofres públicos e sacrificam demais o gênero humano. Nada de original nessa ideia, coisa dos tempos antigos. Ideia medieval ultrapassada. Desde que o mundo é mundo dominado pelos homens, estes lutam para demarcar limites. Assim nasceu a ideia de propriedade privada. Nasceu dessa afixação doentia pelo domínio, que de privado não tem nada. Publicíssimo é o mundo.

A ideia de Trump pode ser encontrada nas antigas cidades-estado, fortificadas para proteção do povo, fortificadas para sua própria ruína, como acontecia nos cercos inegociáveis das guerras. Foi assim que a antiga Jerusalém capitulou sob o cerco do imperador Tito. Foi pensando assim que a China começou a edificar um muro ainda séculos antes de Cristo. Temia invasões futuras. Foi assim que gastou fortunas pelo obsoletismo e pelo sacrifício da vida de cerca de um milhão de operários, que ali tiveram seu próprio túmulo.

No mundo globalizado, onde mais do que nunca está provado que precisamos uns dos outros, a intenção de Trump é um retrocesso, involução em todos os sentidos, do corpo, da alma e do espírito. Ora, o México não dá apenas despesa, ele é um dos maiores parceiros comerciais do Tio Sam. E quem disse que um muro resolve o problema da imigração ilegal, do tráfico de drogas e do contrabando? Não seria mais barato investir em tecnologias e aparelhar o estado americano? Não seria mais barato firmar acordos com o próprio México e trabalhar “dentro da casa” mexicana para evitar o indesejado?

Soluções há, certamente. Não precisa construir muro nenhum. É preciso rever essa questão do direito de fronteiras. A América não é só dos americanos, ela está inserta no mundo, é mundo também, é de todos. Não pode um presidente sair cercando o mundo a partir de seus códigos internos de leis. Não. Eis o tipo de ato que precisa ser discutido e receber uma legislação especial. Vai que a moda pega: o mundo vai virar um labirinto, cada qual erguendo os seus limites ao céu. Sim, e como fica o mundo?

Parece que estou lendo O Pequeno Príncipe. É cada personagem que surge! Tem gente que pensa que é dona do mundo, que pode cercar a Terra e separar as pessoas. Inaceitável essa ideia. Acho que líderes ocidentais deveriam ler uma cartilha única, que contivesse as noções mais comezinhas de geopolítica. Não deveria um candidato poder prometer o que bem deseja. Não poderia qualquer presidente mudar o que lhe dá na telha. O mundo tem normas internacionais, que deveriam ser juradas de respeito pelos senhores candidatos presidenciais. Essas normas seriam um tipo de cláusula pétrea, imutáveis, independente de país ou de partido. O mundo evoluiu muito para viver nessa suscetibilidade política de executivos que veem o seu país como um planeta de Antoine de Saint-Exupéry.

Não é possível que um presidente da república americana não consiga ter uma ínfima visão cosmológica do seu mundo. Erguer um muro não é apenas uma questão de tráfego humano. Muros separam ecossistemas. O que aconteceria com as espécies animais que, na qualidade de bichos – desconhecedores de linhas geodésicas -, transitam livremente na fronteira desses dois países? Donald Trump vai acabar com a migração terrestre desses animais? Acabará com o acasalamento? E a região aquática? Vai chamar Moisés para separar as águas? O que fará para manter seu paisinho dentro dessa caixinha? Como disse um astronauta da Estação Internacional, se os presidentes americanos fizessem uma viagem ao espaço, e contemplassem a Terra lá do alto, nunca mais pensariam da mesma forma.

Bem verdade. Olhando lá do alto, não existem mais fronteiras. Mas nem precisamos ir à Estação Internacional: basta olhar quando um avião decola. Em segundos, desparecem todos esses desenhos, fronteiras que, aliás, são quase todas naturais: rios, florestas e montanhas. Quase nada construído. Será que Trump quer criar uma segunda Muralha? Aqueles que voam bem alto dizem que é o muro chinês é a única obra vista do espaço. Será que é isso? Não sei, mas, considerando que a fronteira não é reta, mas um zigue-zague de três mil quilômetros, ele vai mesmo construir um labirinto.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 31 de janeiro de 2017.