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FEBRE AMARELA

A maior ameaça à vida humana não provêm do câncer nem da Aids. Em matéria de saúde pública, a maior ameaça vem dos mosquitos. Desde às eras mais remotas, esses pequeninos animais apavoram a humanidade. Eles travam uma verdadeira guerra conosco desde que o mundo é mundo, desde que homens têm sangue.

A área tropical da Terra é um verdadeiro criadouro de toda sorte de mosquitos. Favorecido pelo clima quente e úmido, um cinturão verde abraça o planeta com milhares de espécies da flora e da fauna. Nesse labirinto de rios e árvores, encontra-se a maior floresta do mundo, a floresta equatorial, berço perfeito para várias espécies de mosquitos patológicos.

Somente o Aedes Aegypti, talvez o mais popular entre os mosquitos brasileiros depois do pernilongo, é responsável pela transmissão de quatro doenças: febre amarela, dengue, zika e chikungunya. Aterrorizantes. Cada qual com sua agressividade, capaz de matar. Destas, ganha destaque agora a febre amarela.

Durante os dez anos que trabalhei na campanha de erradicação da malária na antiga SUCAM, sempre vi a população confundir febre amarela com malária. Como a malária também dá febre e produz empalidecimento, as pessoas associaram os sinais da doença com a “cor” da febre amarela. Nada disso. Febre amarela não é malária. Não somente não é, como é muito mais grave.

O Aedes Aegypti é o hospedeiro do transmissor da febre amarela, vale dizer: os parasitas da febre amarela podem viver no mosquito, onde evoluem em diversas fases. Picando o homem, o mosquito libera esses parasitas para a corrente sanguínea de sua vítima, cujos sintomas vão observar seu devido tempo de incubação. Já circulando na corrente sanguínea, a pessoa infectada está pronta para, por meio do sangue, transmitir novos parasitas.

Existem dois tipos de febre amarela, a urbana e a silvestre. A forma urbana está erradicada há muitos anos, porém, a silvestre vez ou outra costuma aparecer. Animais de sangue quente que habitam a floresta tropical são perfeitos portadores dessa modalidade silvestre, cujo aparecimento nas cidades deve ser investigado. Em alguns casos, surtos de febre amarela silvestre implicam alguma questão envolvendo problemas com o ecossistema.

No ano de 1983, enquanto eu estava com a equipe de campanha de malária na reserva indígena de Aramirã, interior do Amapá, encontramos um jovem índio com febre. Colhi a lâmina dele para exame de malária, pois os sintomas eram desta doença. Todavia, fazendo uma sorologia no hospital da Serra do Navio, logo o diagnóstico apontou febre amarela. Em dois dias, o índio estava morto. A confirmação do diagnóstico veio por biópsia do fígado, fato, aliás, que causou muita indignação da comunidade indígena, que dizia que, além de matar o jovem, os “homens brancos” ainda tinham tirado um pedaço do fígado do rapaz para comer.

Não existe remédio para febre amarela, a medicação é sintomática. Mas existe vacina. Não estranhe minha redação meio técnica. Não sou médico. Falo como trabalhador do meio durante tempo significativo. Antes de escrever este texto, fui vacinado contra febre amarela no posto que fica na Pedro Miranda com a Mauriti, onde sempre tenho sido bem atendido, registre-se. Antigamente, a vacina contra febre amarela tinha validade de dez anos, em dose única. Agora, precisamos de duas doses. Vou precisar voltar ao posto daqui a um mês.

Ao contrário, a malária não tem vacina, mas tem tratamento. Com várias formas de plasmódio, os mais populares são o Vivax e o Falcíparum. Cada qual com uma sintomatologia e um esquema de tratamento. Durante dez anos, como disse, trabalhei com malária. Eu procurava pessoas febris para fazer lâmina. Eu era o popular fura-dedo, o terror das crianças! Trabalhei também bastante com tratamento. Sob Sol ou chuva, eu tinha de ir à casa de cada pessoa em tratamento levar a dose diária, geralmente amodiaquina, cloroquina e quinino, este para os casos mais graves, geralmente recidivas e a forma Falcíparum. Era um ritual. Pedíamos que o doente trouxesse um copo com água e ingerisse o remédio em nossa presença. Se desconfiássemos, pedíamos que abrisse a boca. São remédios muito amargos.

A malária é a doença que mais mata no mundo, segundo o que sei. E faz isso desde sempre. Dizem que Alexandre Magno morreu aos 33 anos pela ação de um mosquito, no caso, o nosso carapanã, o Anopheles, ou outro gênero patológico da malária. Neste caso, até agora, a melhor coisa é evitar a aproximação do distinto. Quanto à febre amarela, vacina.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)
Publicado no jornal O Liberal em 24 de janeiro de 2017.