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IGREJAS DE FRANQUIA

No moderno direito empresarial, franquia, ou franchising, é um sistema de distribuição de produtos ou serviços em que o proprietário do negócio cede direitos de comerciar a terceiros interessados. É o sistema que movimenta os shoppings centers.
Olhando o surgimento de novas igrejas no Brasil, temos algo parecido. Instaladas no centro-sul, e tendo como principal ferramenta a televisão, líderes tem conseguido multiplicar rapidamente a marca de suas instituições. Eles apresentam seu produto no âmbito local através dessa mídia e, de modo paralelo, começam a expansão de uma rede nacional de templos. E, como no sistema de franquia, não faltarão interessados em abrir o “negócio”, se parecer lucrativo.
Antes de aprofundar, deixe-me dizer logo que a estratégia em si mesma não é má. Se o objetivo fosse de fato pregar o Evangelho, que no dizer de Paulo, é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, nada de mais. Como cristãos sinceros, queremos ver nosso país plenamente são espiritual e socialmente.
Ainda sobre isto, não cabe a justificativa que ouvimos: que interessa que o nome de Jesus seja pregado, não importando se através de contendas ou porfias, uma citação paulina. Aqui, precisamos ter a visão histórica dessa afirmação de Paulo. Sim, porque, naqueles dias, o mundo não tinha, literalmente, ouvido falar sobre Jesus. E se a notícia do Calvário chegasse ao conhecimento de outros povos, nesse caso, os meios eram secundários. Bem diferente do Brasil, onde todo mundo já sabe que Jesus morreu na cruz e que perdoa nossos pecados. Todos já ouvimos o Evangelho, pelo menos no sentido auditivo, de que o apóstolo Paulo se refere.
O problema está no sentido comercial. Diferente de antigas igrejas evangélicas, que se expandiram naturalmente, tendo como pregação a salvação, a partir da década de 60, assistimos ao crescimento de uma mercantilização da Bíblia.
A base doutrinária dessas igrejas de franquia está na malsinada Teologia da Prosperidade. Franqueadores modernos ensinam que o Evangelho é um passaporte para um mundo de felicidades temporais. Todavia, para receber esse tipo de bênção, o fiel deve “sacrificar”, isto é, esvaziar o bolso para a instituição. A resposta das orações é diretamente proporcional a esse ato. O contrário, é incredulidade.
Para atrair seguidores, que não faltam num país de mazelas sociais, os pastores de igreja de franquia maquinam as mais mirabolantes campanhas. Você poderá rodear muralhas, receber uma rosa, tomar banho com sal grosso, beber água do rio Jordão (?), untar-se da cabeça aos pés, mergulhar em tanques ou, no mínimo, beber um copo com água “ungida”. E, como em todo sistema de franquia, o “produto”, as ideias, o modo de falar dos líderes franqueados… tudo tem que ser fiel ao franqueador. Se o líder gesticula bem e fala pausado, franqueados não podem gritar nem serem estáticos.
Vimos que um líder foi obrigado pela Justiça a devolver R$ 2.000,00 a um fiel insatisfeito. Certíssima a Justiça! Se o Evangelho está sendo anunciado como produto comercial, o Código do Consumidor deve valer para os fiéis.
Há um meio de conhecer se determinada pregação é verdadeira. Indaga-se se aquela verdade pode ser aplicada a qualquer povo e em qualquer época. No caso do Evangelho da Prosperidade, a resposta é não. Ele é inadequado a pessoas ricas que vivam bem. Então não é o verdadeiro Evangelho, pois, ainda rico e poderoso, cada homem e mulher precisa de salvação.
Missões evangelísticas na Europa não podem pregar o que pregam no Brasil. Cristãos europeus estão mais interessados em conhecer profundamente o Evangelho e resgatar as disciplinas pessoais da oração e da fé, com os fins de crescimento espiritual. Essas ridículas pregações brasileiras não conseguem cruzar a fronteira. Enquanto aqui homens venais e corruptos aproveitam-se da condição socioeconômica do nosso povo, no Primeiro Mundo, a exemplo da Suíça e Dinamarca, quem conquistou a prosperidade sabe que esta não é suficiente para a felicidade. Querem mesmo o Evangelho. Rejeitam igrejas de franquia.
No Brasil, igrejas de franquia são quase um problema de polícia. Grande parte desses figurões de terno e gravata que pregam a nefasta Teologia da Prosperidade, que nada têm dos valores do Evangelho, deviam mesmo estar atrás das grades.

Rui Raiol é escritor

Site: www.ruiraiol.com.br

Publicado no jornal O Liberal em 17/1/2017