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POSSES MIDIÁTICAS

Não é de hoje que políticos se vestem e se revestem para chamar atenção. Estamos acostumados com essa vitrine. Fernando Collor foi a figura pública que mais provou desse gostinho. Em sua curta passagem pelo Planalto, o alagoano aproveitou bem os holofotes direcionados ao mandatário da nação. Collor foi uma espécie de chef político, a quem eram servidos os mais variados “cardápios” para sua aprovação.

Lula não deixou por menos. O metalúrgico soube aproveitar o calor político de sua boa fase. Lula foi uma das figuras políticas com maior aparição na mídia. Em seu duplo mandato, às vezes parecia onipresente. Lula podia aparecer de manhã numa rápida entrevista no Brasil e horas depois estar no centro de uma grande coletiva em Genebra.

No que diz respeito à posse, políticos brasileiros são deveras criativos. Saúde e limpeza pública sempre encabeçaram a lista de suas preferências nesse primeiro dia de mandato. Como alguém que não se conforma com tanta exposição no horário eleitoral e no tempo de mídia até a posse, alguns políticos parecem querer sugar o néctar até o fim, até que a flor murche.

É assim que Jorge Dória apareceu ontem em São Paulo. Vestido numa impecável farda de gari, o novo prefeito paulista fez questão de sair às ruas para varrê-las. Aplauso para ele, grande representação! Pegar na vassoura apenas algumas horas não é nada para a limpeza da megacidade, mas representa muito para ele em termos de alcance do público que confunde roupa e conteúdo.

Bem, não estou duvidando que Dória quer ver São Paulo limpa. Até eu que moro em Belém também quero. Todos queremos. Eu estou discutindo a produção e o efeito midiático deste tipo de gesto. O gesto tem um quê de candura e contos de fada, assim como também a ideia de despachar uma vez por mês na Câmara. Esses gestos midiáticos carregam consigo uma falsa imagem dos políticos. Esses gestos tentam nos convencer que administrar uma metrópole do top de São Paulo é algo que pode ser resolvido se o novo prefeito dedicar alguns minutos de seu primeiro dia para maltratar suas delicadas mãos politicamente polidas.

E Marcelo Crivella? O bispo da Universal foi doar sangue, um belo gesto humanitário. Diferente de João Dória, e sua promessa para a Câmara, o novo prefeito do Rio não pode doar sangue todo mês. Dória foi mais feliz: limpeza pública tem aprovação de todos. Doação de sangue, não. Testemunhas de Jeová devem ter achado horrível. Suas crenças desaprovam esse gesto. Proíbem. Li estes dias um parecer de Luís Roberto Barroso, ministro do STF, que advoga pela liberdade da convicção religiosa desse grupo, parecer que legitima a morte pela negativa de aceitar transfusão.

Solidariedade não é coisa que se ensine por ato midiático, carece do elemento humano natural e espontâneo. Doar sangue no primeiro dia do mandato ainda é continuidade da campanha política, senão para a nova eleição/reeleição, pelo menos para disparar a inércia da popularidade, cujas estatísticas são requeridas como marcadores de laboratório de uma condição de saúde que ao longo do mandato pode ser converter num tipo de doença maligna.
Certamente, o Brasil não precisa de posses midiáticas. Ninguém precisa apenas de um frasco de sangue nem de meia calçada varrida. O Brasil precisa de gente honesta. E honestidade é algo que carrega em si os códigos da espontaneidade e do anonimato. A publicidade, pedra angular do Direito Público, é decorrência natural de atos e fatos administrativos comuns. Quando uma pessoa é boa, ela faz o bem, e não deseja publicar isso. Pessoas assim não têm preocupações em aparecer “mal na foto”: elas são bonitas de qualquer jeito. Se publicam o que elas fazem, haverão de publicar o que elas são, e elas são o que vivem durante o dia, o ano e o mandato inteiro.

Falta criatividade aos atos de posse midiáticos. Vassoura já é símbolo varrido. Jânio Quadros elegeu-se com ela, mas apesar disso, não apenas São Paulo, mas o Brasil inteiro continua sujo. É recorrente a leitura bíblica: quem faz o bem, esconde a outra mão, não toca buzina diante de si. Quem faz o bem porque é bom, gosta da discrição e da essência. Repele a aparência, não é reconhecido jamais. Começo desacreditando em São Paulo e no Rio. Mostrar que jejua não é coisa de crente. Gari com farda limpa não me convence.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)
Publica em 03 de Janeiro de 2017