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PARA NADA MAIS PRESTA

O sal é um dos materiais mais antigos conhecidos pela humanidade. Em tempos remotos, chegou a servir como moeda, de onde vem a palavra salário, segundo historiadores. Grande é a importância do cloreto de sódio, o popular sal de cozinha. Nos tempos primitivos, era um dos principais conservantes, e continua sendo usado em larga escala na indústria de alimentos e na culinária. Além disso, segundo os estudiosos, o sal é item importante na saúde humana.

No aspecto filosófico, o sal é lembrado como sendo um ingrediente necessário à conservação do tecido social. O sal fala de temperança, equilíbrio e cura. Eis o sentido em que aparece na fala dos filósofos e dos poetas. Eis o sentido em que o sal aparece nos registros antigos da Bíblia e, especialmente, nas locuções de Jesus.

O propósito das instituições sociais é preservar o mundo. A família somente prevalece quando o lar é um ambiente saudável, com liderança, fraternidade e altruísmo. Uma casa dividida contra si mesma não prospera, já avisara o Mestre. Sem temperança e equilíbrio, a célula-mater deteriora-se rapidamente. E assim acontece em todas as esferas sociais.

Nossa sociedade está organizada segundo a fórmula de Montesquieu. Três Poderes. Quatro, se incluirmos o Ministério Público. Essas instituições devem funcionar como sal, pois têm a sagrada missão de criar leis, governar, fiscalizar e julgar as pessoas. Precisam ser puras para que funcionem corretamente.

“Vós sois o sal da terra”, afirmou o Mestre, dirigindo-se aos seus colaboradores. Aqueles que lidam com as estruturas sociais de uma nação precisam ser pessoas exemplares. Vejamos que este princípio encontra-se em nossa Constituição quando exige que, além do conhecimento jurídico, candidatos ao cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal tenham “reputação ilibada”. De igual modo, o elemento “sal” é requisito indispensável para o presidente da República, parlamentares federais, integrantes do Ministério Público Federal, e todo sujeito investido em cargo ou função pública de qualquer nível federativo.

A ética e a moral devem estar presentes nas instituições políticas e sociais. Quem lidera, deve ser o exemplo de integridade, deve conter esse “sal”, deve ser o elemento de purificação do meio em que atua, de modo que sua existência gere uma respeitabilidade fundamentada no “ser” e jamais no “ter”.

No caso do Brasil, assistimos a um apodrecimento do seu tecido social. Instituições que têm a função de preservá-lo, relaxaram e agora são justamente o sujeito ativo da corrupção desse tecido. A nação deteriora-se largamente e essa podridão alastra-se pela extensão de seus oito milhões de quilômetros quadrados. Para os agentes ativos dessa putrefação política e social, a palavra do Mestre é radical: não prestam mais, porque, em tendo a função de preservar o meio em que atuam, negociaram valores inegociáveis do ponto de vista da moralidade e da ética. Para nada mais prestam, viraram “areia”, embora insistam em afirmar o papel que não exercem mais.

“Para nada mais presta”, certamente, é uma das palavras mais duras que encontramos nos lábios de Jesus. O fundamento desta afirmação não está apenas no resultado corruptível da ferida social e mesmo eclesiástica. Não. Para que o sal abandone sua função de salgar, ele próprio precisa se corromper primeiro. É assim que o Mestre enxerga: o sal apodreceu, perdeu a salinidade, agora é apenas aparência e pó. Corrompendo seus valores intrínsecos, o homem sela seu destino. Mexeu com Deus.

Voltar à condição de sal, uma hipótese remotamente difícil. Talvez precise doar tudo aos pobres, tornar-se um reles discípulo social e reaprender a cartilha que rasgou. Quem se habilita a isso? Na Bíblia, o suposto corrupto Zaqueu prometeu restituir quaduplicadamente suas vítimas. Talvez não seja suficiente. Talvez seja preciso abandonar tudo. Zerar o caixa. Voltar a ser pobre. Quem se habilita? Talvez fosse esta a única alternativa para aquele jovem rico correto a quem Jesus disse “uma coisa te falta”. Talvez seja por isso que o jovem rico retirou-se tão triste. Não tinha mais volta.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)
Publicado no jornal O Liberal em 13/12/2016