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A ORAÇÃO DE DEUS

Imaginemos que Deus resolvesse orar. Cansado de tanto ouvir nossos pedidos, e considerando que a oração é uma conversa, ele viesse até nós com algumas questões. E nos apresentasse problemas cuja solução dependesse de nós mesmos. O que ele nos pediria? Acho mesmo que sua primeira fala seria um desabafo. Ele reclamaria que alguns de nós somos péssimos articuladores. Falamos demais e nem lhe damos chance de responder, de pronto, alguns itens que lhe consultamos. E, aproveitando esse gancho, Deus nos daria uma orientação: – Fale menos e pratique mais o que você ora! Logo nesse princípio de oração, Deus nos mostraria que muita coisa que pedimos não depende dele. No máximo, ele pode nos proporcionar algumas condições. Todavia, a tarefa de “atender” o pedido está mesmo conosco. Ele reclamaria, por exemplo, que pedimos paz no trânsito, mas, saindo de casa, esquecemos a menor noção de urbanidade. Buzinamos compulsivamente.

Avançamos sinais e parecemos sempre em desvantagem com pedestres e até animais querendo uma travessia. Nem igreja, hospital e escola escapa de nossos decibéis. Ele diria, ainda, que para termos fé precisamos crer. E crer equivale a acreditar que tudo dará certo. Portanto, nos pediria que deixássemos tanta murmuração. Aos que lhe pedem prosperidade fácil nas igrejas, Deus perguntaria o que essas pessoas estão fazendo da vida? Ele rogaria que esses fiéis se dedicassem ao trabalho e aos estudos. Diria que pode nos abençoar, sim, mas sem essa de corrente de fé para ficar rico. E, se tentássemos contrargumentar, ele nos perguntaria se já vimos algum frequentador enricar nesses lugares. Sobre a saúde, Deus oraria com sérios pedidos. Rogaria que abandonássemos o cigarro e o álcool. Ele ainda pediria que parássemos de consumir gordura saturada, com muito sal, exageradamente doce etc.

E nos pediria, ainda, para praticar exercícios físicos. Diria mais: – Você pode responder sua própria oração. Se quer emagrecer e ter qualidade de vida, faça o que estou lhe pedindo! Nessa hora, Deus rogaria que não lhe peçamos coisas que nós mesmos devemos fazer. – Isso não é da minha alçada! – diria, nos fazendo ver que não precisamos sair do campo natural para resolver alguns problemas.

Depois disso, Deus passaria a orar mesmo, conforme nossos modelos. Ele nos pediria um monte de coisas. Que tivéssemos mais carinho com aquele filho complicado pelo qual tanto oramos e que nunca o desprezássemos. Pediria que parássemos de dizer que tal filho “não tem jeito”, que é “uma peste”, “um capeta”, e assim por diante. Deus rogaria que, pelo amor de seu nome, abençoássemos nossos frutos, cônjuges, parentes, amigos e até inimigos. Àqueles empresários que não param de acumular riquezas e vivem brigando com os concorrentes, Deus oraria para que fossem fazer um passeio nos cemitérios-parque da cidade.

Que se lembrassem da frieza do verbo jazer, a ser um dia aplicado a todos nós. E intercederia para que o nosso orgulho jazesse de uma vez por todas enquanto é tempo. Aos ministros religiosos, Deus faria a mais séria das orações. – Parem de me reduzir a uma placa de igreja, a uma instituição jurídica e se considerarem superiores em relação a outros irmãos da fé. Ensinem só o que eu deixei na minha Palavra e não compliquem o Evangelho! Falem menos em dinheiro e mais na salvação eterna. Preguem sempre diante de um espelho, primeiro para vocês mesmos. E não permitam que a religião afaste as pessoas de mim! Acho que Deus oraria assim.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 29/03/2011