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UM MILHÃO DE BRASILEIROS ASSASSINADOS

Brasil, país banhado de sangue. Segundo pesquisa do Instituto Sangari, em São Paulo, mais de um milhão de brasileiros foram assassinados nos últimos trinta anos. Trágico. Cifra vergonhosa que nos reúne ao que há de mais degradante no planeta. Um milhão e cem mil cadáveres. Velhos e crianças. Mulheres e negros. Doutores e iletrados. Vidas roubadas, que perderam tudo porque nasceram neste solo.

A notícia é para mexer com todos nós. Indivíduos. Estado. Igrejas. Instituições sérias do nosso país. Parecemos acostumados com esse banho de sangue. Cultura de morte. A vida vale tão pouco neste berço nada esplêndido. O que estamos fazendo, enquanto agentes de transformação? O que fazem os políticos, que mais uma vez batem à nossa porta? O que fazem governadores e presidentes? O que fazem líderes religiosos desta festejada nação teísta?

Quando vejo o País gastando horrores com Olimpíada e Copa, pergunto se esse mesmo empenho existe contra a violência. Por que não há um plano para matar a morte das nossas ruas? Por que o governo não chama nossos cientistas sociais para discutir esta guerra sangrenta? Por que não debate o assunto com o povo, mas se mostra tão reticente?

Quando vejo as poderosas igrejas brasileiras e seus riquíssimos santuários, pergunto como se justificarão diante de Deus. Por que o catolicismo não sai às ruas expressamente contra a violência? Por que a Convenção Geral das Assembleias de Deus não usa sua força de maior igreja protestante e protesta contra esse genocídio? Por que a Universal não esquece por enquanto o Templo de Salomão e chama atenção de todos para o sacrifício de um milhão de vítimas neste altar satânico? Por que todos não se unem contra a quebra do mandamento Não matarás? Por que não denunciam este terrível pecado?

Na verdade, o Estado e certas instituições brasileiras parecem ter feito um pacto de silêncio. Vivem acima da realidade. Estamos em estado de guerra social, mas é como se nada houvesse. Um milhão e cem mil brasileiros assassinados. Isto é quase toda a população de Belém, que, segundo o Censo de 2010, é de um milhão e trezentos e cinquenta mil almas.

É possível que a religião classifique tudo isto como apocaliptico: Fim dos tempos, diria. Não discordo das profecias bíblicas. Mas, por que só com a gente? Por que esse apocalipse não atinge a Suécia, o Japão, a Suíça e até o nosso vizinho Chile? Por quê? E mais: se igrejas contemplam o fim do mundo, por que motivo insistem em arrecadar dinheiro de seus fiéis e investir num solo minado? Dez por cento de todos os homicídios do mundo ocorrem no Brasil. Enquanto isto, o País ganha destaque mundial também pela corrupção. Nossas riquezas vazam. Sobram armas clandestinas, falta ensino eficiente. A nação brinca de escola. Salas de aulas mal aparelhadas, colégios sujos, desvios da minúscula fatia do orçamento. Cortes oficiais e oficiosos. Falta investir em segurança. Nossa polícia tem vergonha do que ganha. Agora mesmo, julga-se o Mensalão. Seguindo a tese da defesa, todos são inocentes. Culpados somos nós, que aceitamos esta política de sangue. Culpados somos nós, que sorrimos o sorriso de políticos milionários que, à semelhança da religião institucionalizada, só pensam em expandir seus impérios.

Não podemos aceitar que um milhão de brasileiros tenham sido ceifados por seus compatriotas num espaço de trinta anos. Nenhuma guerra matou tanto. Superamos o conflito árabe-israelense. Guerra da Guatemala. Vietnã. Temos um milhão e cem mil mortos para prantear.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 14/08/2012