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CÍRIO, MULTIDÕES E A PORTA ESTREITA

Não posso esquecer meus quinze círios. Trinta. Nascido em Vigia, historicamente o berço da devoção mariana, acompanheios desde tenra idade. Em 1963, aos noves meses de vida, minha avozinha materna levou-me no colo pela primeira vez. Caminhamos da Igreja de São Sebastião até a Madre de Deus. Depois, mais crescidinho, essa força era alternada com alguns passos trôpegos no meio da romaria. Era quando eu não via nada, logo insistindo para que minha ajudadora me carregasse de novo. Mais tarde, já ia só, de preferência ao lado das centenárias bandas de música União Vigiense e 31 de Agosto.

O Círio nasceu como uma caminhada de fé a céu aberto. Não vou aqui entrar no mérito teológico em nível de certo ou errado sobre isto. Temos um Pai e temos uma Bíblia. Temos o Justo Juiz e as Escrituras, cujas palavras – hoje de fácil acesso – julgarão os nossos atos. Código divino. Livro de consulta para quem, ainda na Terra, acredita na Eternidade. Código de julgamento para quem já partiu.

O Círio não nasceu como uma procissão de muitos. Nasceu quanto agrupamento de poucos. Hoje, Vigia e Belém orgulham-se de arrastar multidões. Ali, milhares. Aqui, milhões, embora discutível a precisão. Não importa mesmo. O fato é que o Círio é um sucesso de gente. Resta saber a qualidade de vida com Deus de cada romeiro. Bebida em casa, nem pensar no dia do Círio. Vigia tinha foguete, alvorada musical, arraial e tudo mais. Porém, cerveja, cachaça, rum e licor nada a ver. Éramos ensinados pelo padre Alcides Paranhos e outros párocos que devíamos buscar a Deus. Jejuar. Rezar. Confessar pecados. Comungar. Santificar-nos a nós mesmos, lembrando o exemplo de simplicidade e santificação de Maria. Afinal de contas, ensinavam os meus padres, se estávamos festejando alguém que considerávamos santos não podíamos fazer isto com o pecado.

O aumento exagerado de fiéis em qualquer religião deve disparar o sinal vermelho. Pastores – strictu sensu – devem redobrar os cuidados. A sabedoria bíblica afirma que a porta da salvação é estreita e são poucos os que entram por ela. E, na típica repetição da literatura hebraica, que a porta da perdição é larga e o caminho espaçoso, e muitos passam por ele. Em sã consciência, nenhum líder espiritual, verdadeiramente comprometido com Deus, deve vangloriar-se de multidões. Muitas vezes, é mesmo uma vã glória. Depois de meus quinze anos de Círios em Vigia e meus trinta no total – porque no segundo domingo de outubro estávamos em Belém –, ingressei na Assembleia de Deus. Quando nasci, em 1962, Daniel Berg – um de seus fundadores – ainda vivia.

Hoje, estou há trinta e cinco anos nessa igreja. No Círio e na Assembleia de Deus Brasil afora existem multidões, mas a qualidade agora é questionável. Relativamente. Porém, questionável. Hoje, sabemos que certos romeiros passam a noite bebendo no Largo da Sé. Eles querem ser os primeiros da romaria. Hoje, sabemos que alguns “nobres” pastores da Assembleia de Deus, sobretudo alguns deles com título de presidentes de convenções ou concílios, não passam de agentes do Diabo no meio do rebanho. Depois da chegada da imagem à Basílica, Belém vira um inferno a céu aberto em muitos lugares. Pessoas bebem até cair.

Ofendem a santidade do Céu com suas palavras torpes. Os treme-terra estremecem a cidade com suas batidas mundanas, cujas letras e músicas nada têm a ver com a santidade de Maria. Estreita é a porta e apertado o caminho para o verdadeiro Evangelho e são poucos os que acertam com ele. É interessante que milhões e milhões e milhões se reúnam anualmente na Índia.

É interessante que milhões de muçulmanos tenham suas reuniões a céu aberto. Interessante que as ruas de Belém fiquem cobertas de pés descalços. Interessante que igrejas pentecostais e neopentecostais encham estádios, praias e templos gigantescos. Mas, pelo número, nenhuma certeza temos de que estamos andando os passos de Deus. Piedosos romeiros são figuras esquisitas diante de desrespeitadores do Círio e profanadores do Céu.

Piedosos crentes são estranhos no meio de rebanhos numerosos de evangélicos que se espantam com “Aleluia!” e não dizem mais “Glória a Deus!” Pastores comprometidos com uma vida de piedade são persona non grata em círculo de magnatas da fé. Foi assim e sempre será. Números não significam nada para Deus. Ele trata com pessoas individualmente. Multidões devem disparar o sinal de alerta para mulheres e homens de vida consagrada, sobretudo àqueles que Deus colocou à frente do grupo. Em Jerusalém, multidões clamaram pela crucificação de Jesus. Sacerdotes, escribas e fariseus apoiavam isso.

Rui Raiol é escritor. (www.ruiraiol.com.br) – Publicado no jornal O Liberal em 1/10/2013