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NOSSA FICÇÃO POLÍTICA

Parece-me que eleição e realidade são coisas distintas na cabeça de muitos eleitores. O dia da eleição deveria ser recebido como o dia para se mudar de vida – ou pelo menos trabalhar-se para isso –, todavia, não é o que acontece. Ainda não temos a plena consciência do poder do nosso voto. Ainda não temos a consciência que é no dia da eleição que podemos avançar ou retroceder.

Há alguns dias, escrevi aqui sobre jingles e paródias eleitorais, onde procurei tecer uma trilha que nos mostrasse o poder da influência negativa que essas criações musicais podem exercer sobre o povo. Agora, estou convicto de que não é só jingles e paródias, mas uma orquestra inteira. Uma orquestra hipnotizante de campanha eleitoral que nos anestesia sobre o dia “D”.

Sofremos de todo um conjunto de fatos que produzem esse resultado letárgico. A campanha no rádio e na televisão merecem um destaque à parte. Risível. Vazia. Esdrúxula. É a oportunidade em que, pela maioria dos candidatos, somos convencidos de que eleição é piada e que, portanto, o dia de votar é um dia jocoso. Esta é a mensagem que fica, mensagem sem necessidade nenhuma de recurso subliminar. A coisa é dita às escâncaras.

Um monte de gente que mal sabe falar pretende assumir a vida pública. Candidatos despreparados deixam bem claro que estão buscando apenas melhorar de vida. Outros, letrados, têm olhos opacos quando falam de questões sociais. Brilho nos olhos têm mesmo somente quando pensam nos rios de dinheiro e facilidades que terão se nós, máquinas de votar – como alguns nos tratam – cumprirmos bem o nosso papel e os elegermos.

Longe do rádio e da TV, as cidades enchem-se de caras e bocas. Cartazes mostram-nos a face retocada pelo Photoshop de gente que não merece crédito. Carros-som infernais perturbam os nossos ouvidos querendo nos empurrar seus candidatos tímpano abaixo. E, falando em carro, também vêm as carreatas, quando alguns distintos candidatos surgem como heróis em cima de trios elétricos. Desfiles políticos nessas horas têm o tom de celebração, é um tipo de comemoração antecipada, comemoração do que eleitores robotizados confirmarão nas urnas.

Por favor, perdoe-me meu tom. Não quero ser sarcástico. Creio mesmo que existe toda uma orquestração que trabalha a banalização do dia eleitoral. Então, vamos encontrar eleitores que resolvem viajar justamente no dia em que poderiam mudar o rumo do País. Parece que estamos com febre quando vamos ao voto. A mudança tão necessária não parece estar em nossas mãos, porém, depende de milhares e milhares de outros votos. Assim, cada um pensa. Assim, cada um perde.

O mapa destas eleições mostra respostas políticas, certamente. Todavia, isto é muito pouco. O voto evoluiu, mas a consciência eleitoral não mudou quase nada. Se antes a coisa era mecânica, manipulável, sujeita à contagem e recontagem, agora nosso voto é eletrônico. Podemos mudar a realidade em poucos segundos de votação. Podemos mudar a realidade em duas horas de apuração. Porém, continuamos votando como nos tempos da velha urna de madeira.

Dia das eleições assemelha-se a dia de jogos de futebol. É a disputa entre o candidato A e o candidato B. A batalha entre o partido X e a coligação Y. Bobagem! Eleição não é apenas coisa de mérito político. Não é a vitória de João contra Maria. Não. Eleição é a vitória ou a derrota da gente mesmo através das pessoas que nos representarão e que governarão a gente.

Mas eleição no Brasil ainda tem essa característica de dia de lazer. Dia de xingar perdedores. Dia de celebrar vitórias. Ora, o que sabemos, por exemplo, sobre as leis do nosso município? O que fizeram ou deixaram de fazer em seus mandatos os vereadores que foram reeleitos domingo? Qual foi a produção legislativa daqueles que desocuparão a cadeira em 2017? É isso que importa em matéria de câmara de vereadores.

E quanto às prefeituras? Como está sendo o mandato atual de quem se reelegeu ou vai para o segundo turno? Que propostas plausíveis tinham candidatos que foram eliminados no primeiro turno? O que perdemos? O que ganhamos em matéria de pessoa preparada para assumir essa importante função de gestor? O que faz um prefeito, afinal de contas?

No final, o resultado das urnas ecoa a voz da população. Essa voz é dirigida aos futuros vereadores e prefeitos, e diz: “Estamos satisfeitos, podem continuar!”, ou: “Não suportamos mais isto, desocupem a cadeira!”. Os políticos, tão loquazes até o dia da eleição, agora apenas obedecem. Nós dissemos o que queremos, agora é a vez deles. Mais quatro anos!
Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br) – Publicado no jornal O Liberal em 4/10/2016