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HUMANIDADE FLUTUANTE

Depois de quase uma década escrevendo neste espaço, muitos leitores comentam e me pedem que republique determinados artigos. Às vezes porque gostaram muito, às vezes porque perderam o texto impresso e querem colecionar, outros porque ouviram falar e não leram. Hoje, resolvi atender alguns desses clamores. Então, vou trazer para você uma das páginas mais referidas escritas por mim neste jornal, Humanidade Flutuante.

Segundo uma visão espacial de nossa existência, somos todos astronautas flutuantes. Vivemos submersos na camada atmosférica da Terra, sua porção mais baixa, onde o oxigênio se amolda a todas as formas, formando o contorno mais perfeito. Diferenciamo-nos dos cientistas do espaço apenas pela gravidade. É esta força que nos puxa para baixo, que numa linguagem não-verbal determina que o nosso lugar é aqui. Pelo menos por enquanto. Mas vivemos suspensos. Cada passo, cada gesto, uma tentativa de fuga. Humanidade flutuante.

Se os peixes não conseguem viver fora d’água, tampouco nós podemos viver sem ar. Nosso oxigênio não é líquido. Gás. Uma bolha que circunda a Terra em espessa camada, por não muitos quilômetros. Se subimos uma montanha, a rarefação afeta diretamente nosso corpo. Então, precisamos descer rápido. Mergulhar. Flutuar. A vida acontece dentro desta faixa espacial, onde escrevo, onde você lê. Somos humanidade flutuante. Sem exceção alguma. Sem taxação de serviço, pelo menos antes que algum político loteie a atmosfera. Privatize. Negocie. Enquanto ele não aparece, vamos flutuando livremente, sem barreiras, sem fronteiras.

Esta flutuação é um fenômeno complexo, que nos envolve por dentro e por fora. O oxigênio que preenche todos os vazios geográficos é o mesmo que alimenta nossos pulmões. Respirar é viver. E vivemos assim, enchendo-nos de ar. É isto que nos torna corpos flutuantes dessa grande bolha. Nada é fixo em nossa vida. Só os nossos bens imóveis conseguem ficar parados. Quando conseguem, bem amarrados ao solo. A gente, não. Voamos. Vivemos um constante ensaio do que nos sucederá mais tarde. Humanidade flutuante.

Somos humanidade flutuante também porque passamos. Cada corpo flutuante irá um dia aterrissar. Voltar ao pó. E se não isto não acontecer por um acidente de percurso, acontecerá pelo avançar dos anos. Nosso corpo envelhecerá, vencerá a gravidade, quando, paulatinamente, nos forçar a descer de vez ao chão. Cada músculo. Cada órgão. Cada tecido. E, por incrível que pareça, a gravidade terá um aliado nesse combate: o oxigênio. Ele que nos fez flutuar, nos enchendo de vida por dentro e por fora, fará envelhecer nossas artérias. Assim, vamos reduzindo nossa marcha. Parando. Até quando finalmente cessar nosso passeio por este belo planeta.

Numa macrovisão, toda a humanidade se renova a cada século. Cem anos. Para não deixar ninguém pulando de graça, salvo algum terráqueo teimoso. Esta é uma visão estática, naturalmente, pois a renovação é permanente. Nessa macrovisão, toda a humanidade é para o planeta como um único ser. Um único corpo. Algo que respira e flutua. Um cinturão flutuante de vida, circunscrito e pulsátil na atmosfera. Algo que tem começo, meio e fim.

Às vezes, nossa cabeça nos diz coisas estranhas. Olhamos bens à nossa volta, e emprestamos deles a natureza morta. Se a casa está de pé e o carro em plena forma, o que pode suceder a nós? Porém, o ritmo de nossa respiração assinala nosso estado precário. A vida é alguma coisa acima de todo entendimento materialista.

A vida é essa bolha. Esse ar. Suspensão. Humanidade flutuante. Quem entender bem esta verdade, saberá viver melhor 2012. Livre de tanto peso. Fardo. Ferro. Tanta coisa que tenta nos desligar antes do tempo. Pesos e contrapesos que auxiliam a gravidade, em sua missão de nos tornar mais rápido em pó. Vamos apenas respirar. Flutuar. Viver. Quanto mais leve, melhor.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)