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INTERNET, SONHOS E PESADELOS

Esta semana, um alto executivo da Google falou da obrigação que teriam os governos de países emergentes de favorecer a chamada inclusão digital, isto é, o acesso popular à internet. Aqui na Amazônia, por exemplo, a rede mundial de computadores ainda é um sonho de muitos. O Amapá não tem banda larga. Porém, onde a navegação ocorre em mar aberto, a facilidade também revela um lado sombrio. Muitos naufrágios. Mas comecemos pelos sonhos.

A internet é um pequeno passo para o homem, mas uma estrada sideral para a humanidade, parafraseando Neil Armstrong. De repente, podemos resolver muita coisa. Conectados com o mundo, ruem as muralhas políticas, com alguma exceção, claro. Há três dias, por exemplo, enviei um convite anexo para um amigo na China, que foi vetado pelo regime. Mas é a exceção mesmo.

Qualquer comunidade recôndita do mundo pode figurar no topo das notícias globais em questão de segundo e promover uma reviravolta. Os cães náufragos do Marajó ainda flutuam em mentes e corações que não suportam maus tratos contra os animais. Eu sou o primeiro da lista. Os recentes movimentos de rua no Brasil nasceram com senha de login. Uma postagem boba pode virar sucesso, dependendo do gosto dos fregueses virtuais. E não falta gente para se aproveitar disso. Mas, falemos primeiro dos sonhos mesmo.

Saúde, bancos, estudos, achados e perdidos humanos, reclamação, voto, lazer… Bem, é infindável a lista de coisas boas e úteis que a internet pode propiciar. Ninguém duvidaria disto em sã consciência. Com um click, eu passeio diariamente pelas páginas do New York Times. Outro toque do indicador, e lá estou na França, lendo o Le Monde, como se estivesse num dos românticos cafés da Cidade Luz. Mais duas braçadas, e abre-se o resto do mundo, onde posso aportar e desatracar rapidamente ou, quando me cansar, apenas sobrevoar o globo através de mapas e imagens de satélite capazes de me tornar meio-onipresente. Mas nem tudo é sonho nessas águas.

O Brasil orgulha-se da liderança mundial de acesso a redes sociais. Todavia, há de se perguntar: o que o nosso povo está buscando nesse mar de tubarões? Que segurança têm as nossas crianças, adolescentes e jovens? O que os nossos velhos entendem desse tipo de aventura? Não acredito que o simples acesso à internet equivale à inclusão digital, assim quanto não acredito que ensinar desenhar o nome não é alfabetizar. Vou contar a história de um amigo.

Precisando muito de uma pessoa para auxiliar os serviços domésticos, esse amigo procurou uma jovem do interior. Interior do interior. Brenha, como diz o caboclo. Ele imaginava que ali estava a saída. Endereço da candidata: margem esquerda do furo das comadres, passando a terceira curva do igarapé das almas perdidas, alto da ribanceira do vai-quemquer e não muito longe da comunidade fica-se-quiser-e-não-me-aborrece. Bem, era mais ou menos este o endereço da menina, moça pura, idealizada como a última fronteira do Éden.

Quando a candidata desembarcou no Terminal Rodoviário, a internet saiu primeiro. As postagens corriam soltas no Face e as chamadas pipocavam sem parar. Nada de mais! Quem sabe, o citadino não era um velho preconceituoso perante uma alma tão pura, com aquela minissaia que já dizia tudo. Mas, vamos lá. “Cuidado!”, disse a irmã mais velha, guardiã, que lhe arrumara a encomenda. “Essa menina nunca saiu de casa. É a primeira vez que vem pra cidade!”, adoestou. Quanta pureza!

Segundo o meu conhecido, aquele computador de bolso nunca, nunquinha parou. Passou o resto da manhã tocando. Tirou a fome da moça. Foi a tarde, e a manhã, no dizer bíblico, e a pequena se virando e revirando nos trinta e nos sessenta, sabe lá quantos torpedos, mensagens, postagens e raio que os parta! Chegou a noite. Casa suja, louça suja, o celular era o seu tímpano e a sua retina. Nove da noite, hora de conversar, para ver como fica e assinar a carteira. A jovem diz que não fica. Era “muito complicada”, confessa. E, abandonando o barco, foi parar num hotel meia-noite para acordar cedo e voltar pro mato. Que perdição social!

O pesadelo da internet provém da falta de preparo para seu uso. É uma excelente ferramenta, mas os nossos jovens precisam ser educados a respeito dela. A internet salva e condena. Inclui e exclui. O governo precisa mesmo investir na educação. Formar e capacitar professores e técnicos. Remunerá-los bem. Construir boas escolas. O computador não pode substituir a formação humana do magistério. A internet é um mar que pode nos levar a bons destinos. Porém, sem uma boa educação, pode ceifar muitos nas suas águas coloridas.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br) – Publicado no jornal O Liberal em 03 de Dezembro de 2013