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JINGLES E PARÓDIAS ELEITORAIS

O uso da música durante as campanhas eleitorais brasileiras ainda não entrou definitivamente em pauta. Legislativo e Judiciário ainda terão de trabalhar um pouco mais para que essa questão seja aperfeiçoada.

Já faz anos que os conhecidos showmícios foram banidos do cenário político, porém, o uso da música continua, não contribuindo em nada para a cidadania. Agora, através da Resolução n. 23.457/2015, o Tribunal Superior Eleitoral disciplinou pormenores sobre trios elétricos, minitrios e carros de som. Todavia, a preocupação é nitidamente com o volume.

Portanto, proibindo o uso de veículos de som para showmícios e preocupando-se somente com questões de decibéis, a legislação é tacitamente favorável a toda outra forma de manifestação musical em propaganda política. Assim, continua liberado o uso de jingles e paródias. E isso não é nada bom para um povo que diz estar em busca do amadurecimento político.

Todos sabemos o poder da música. Nossa memória auditiva é algo fantástico, dizem os entendidos no assunto. Quantas músicas da nossa infância permanecem guardadas em nossa cabeça? Impressionante! Ouvimos uma antiga canção, e com ela pode vir a reboque um mundo de outras recordações. A música pode trabalhar todas as áreas da nossa vida. Pode incitar o amor e o ódio. Produz ciúmes e brigas. Induz alguns ao alcoolismo. Sentado numa mesa de bar, um homem solitário pode refazer toda sua triste biografia através de uma música surrada. Amado Batista que me desminta!

Sou evangélico há trinta e cinco anos, mas sempre que ouço “Vós sois o lírio mimoso”, voo até minha cidadezinha de Vigia. Memória auditiva. Aliás, a música é uma das principais aliadas da religião. Está presente em todos os credos. Tem o poder de solidificar emoções e conhecimentos da alma. Depois de passar meio século ouvindo sermões, não consigo recordar de dois ou três. Mas, as músicas estão na minha cabeça. Tenho um verdadeiro patrimônio musical espiritual. Costumo dizer que o Evangelho que fica na gente mesmo é um tipo de Evangelho musical, gravado na alma através dos cantos congregacionais e de outras canções que marcaram época na vida da gente.

Bem, lembrei de tudo isto para afirmar este pensamento: o TSE devia vedar também o uso de jingles, paródias e toda criação que virasse tema de campanha de qualquer candidato. Por que mesmo? Porque a música inebria, embriaga, mexe com a gente. Com todo o respeito, quem não se lembra do jingle “Lula lá! Lula lá!”, nesse trocadilho que deu certo? Quem já esqueceu de Fafá de Belém executando o Hino Nacional deslumbrante durante as “Diretas Já!”?

Não posso afirmar o que vou dizer, claro, mas penso que muita gente vota por causa da música. Quando um candidato acerta no jingle, ele tem grande chance de cair na graça do povo. Você já pensou, por exemplo, o que seria se um candidato evangélico resolvesse tornar algum hino famoso sua música oficial de campanha? O que aconteceria? Ao ouvirmos esse mix do sagrado com o profano, de alguma forma carrearíamos o conteúdo espiritual dessa música para a campanha do irmão. Isto tem um poder inimaginável.

Mas também tem outro lado: tem jingle que não dá certo e acaba aborrecendo eleitores. Semana passada, eu fui obrigado a ficar ouvindo um funk maçante no Portal da Amazônia. No meu caso, não gostei da música nem da letra. Aborrecedor você ir caminhar ao ar livre e encontrar no caminho uma caixa de som bate-estaca. “Oh! Nesse eu não voto mais!”, foi minha convicção. A música me afastou anos-luz do candidato. Não quero nem saber que propostas ele tem, já perdeu um voto para o jingle. Como dizia o famoso maestro macapaense Francisco Fernandes, o Tiago, quando a música dá certo, produz harmonia; quando dá errado, produz mesmo é agonia. Foi isso que aquele jingle produziu em mim.

O uso dessas músicas de campanha funciona como rouba-consciência: a gente não tem tempo para pensar. A coisa vem como uma lavagem cerebral, querendo empurrar goela abaixo determinado candidato. Aí, famosos músicos regionais – já especializados na arte das urnas – soltam o vozeirão e gritam para gente o que é “o melhor”. Afirmam e reafirmam que a solução é ciclano e beltrano. Então, o brasileiro, cuja metade do sangue veio de barco da África, quando menos perceber, já estará no ritmo.

Precisamos amadurecer nossa legislação política e ensinar o povo que eleição não é brincadeira. Fala sério! O corruptômetro político brasileiro está no seu indicador máximo, autoridades importantes, que há pouco foram eleitas, sendo presas, e nós querendo eleger mais um grupo no embalo do funk, do samba e do brega! Não. Não precisamos cantar agora. Precisamos votar direito.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br) – Publicado no jornal O Liberal em 20 de setembro de 2016