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O RESTO DAS AFLIÇÕES DE CRISTO

Páscoa é um tempo de reflexão sobre o significado da fé cristã. É um tempo de reflexão sobre a nossa vida, mas, principalmente, sobre a vida de Cristo e toda sua implicação sobre a nossa trajetória.
                Hoje, o título da nossa coluna é fornecido pelo Apóstolo Paulo. Escrevendo aos primeiros cristãos de Colossos, cidade grega, o grande propagador da mensagem da cruz lembra dos sofrimentos de Jesus, para depois considerar que ele mesmo, Paulo, cumpria ainda o resto das aflições de Cristo. Como pode ser isto? Será possível que os sofrimentos de Cristo ainda estão abertos e nós, distantes dois mil anos da sua Paixão, tenhamos algo a sofrer também nesse processo? Nesta argumentação, precisamos rever rapidamente a biografia de Jesus.
                Jesus nasceu de uma mulher cujo marido inicialmente desconfiou de traição. Pequenino, viajou longas distâncias para se refugiar no Egito para escapar da ira de Herodes, que ordenou a morte de todos os meninos abaixo de dois anos. De volta à Palestina, seu ministério nasceu com certa rejeição da própria família, notadamente de alguns de seus irmãos que não criam nele.
                Mas foi na sua igreja que Jesus enfrentou os maiores revezes. Ainda bem no começo de suas pregações públicas, e os líderes da religião já traçavam planos para matá-lo, não levando a ideia a termo por causa do povo, que em grande parte o considerava profeta. A solução foi deixar Jerusalém e refugiar-se no norte, na Galileia. O norte era um lugar pobre, campestre, terra de forasteiros, de miscigenação cultural. Mas foi nessa terra, de sotaque marcante, que o Messias vocacionou seus primeiros auxiliares.
                Jesus viveu a maior parte de seu ministério na Galileia. Literalmente, ele desceu para Jerusalém na sua última semana de vida. Domingo, ele entrou na cidade, depois de ter profetizado aos seus seguidores que ali seria morto por ordem dos presidentes dos concílios religiosos da época. E assim foi. Ele foi traído. Vendido. Acusado sem provas. Julgado de noite. Executado no dia seguinte como um dos piores criminosos. Os seus “pastores” ou “bispos” estavam tão corrompidos que subornaram os guardas romanos que foram lhes contar a história de um túmulo vazio na manhã de domingo. Eis o resumo.
                Os seguidores de Jesus nasceram debaixo do jugo do mesmo preconceito, segregação e até morte. Nunca é demais lembrar que, à exceção de João e Judas Iscariotes, todos os demais apóstolos foram martirizados, inclusive Paulo. Os cristãos foram expulsos das sinagogas, ato mais extremo para a vida de um judeu da época. Ser expulso da sinagoga era ser proscrito não só da religião, mas da vida social. Cristãos passaram séculos reunindo-se nos lares. Escondidos nas catacumbas. Apócrifos.
                Naturalmente, todo seguidor de Jesus é seguidor de uma figura banida, proscrita, marginalizada. Naturalmente, também, estou falando de valores, valores espirituais éticos e morais, que se encontram na base dos ensinos de Jesus. Quem quiser segui-lo, enfrentará os revezes de uma sociedade corrompida, onde o certo chama-se errado. Hoje, quando a religião cristã se institucionalizou em boa parte, o surgimento de impérios eclesiásticos reproduz perfeitamente a saga vivenciada pelo Nazareno. Não existe quase espaço para aquela mensagem despretensiosa dos primeiros crentes. Exceções à parte, justiça, verdade e amor constitui retórica de altares e púlpitos.
                Mas sobra a vida de cada um, verdadeiro espaço do discipulado cristão. É assim que Deus deve ser vivenciado, não como uma personagem do teatro religioso do culto, mas um agente real, que anda conosco, trabalha com a gente, sofre quando sofremos e se alegra com as nossas vitórias. Essa ideia massiva de um Cristo institucionalizado combate de frente com o discípulo que deseja cumprir o resto das aflições de Cristo. Qual seria esse resto? É a porção individual de cada seguidor sincero, convicto de que o discipulado de Jesus não pode agradar os impérios eclesiásticos do nosso tempo.
                Nesta Páscoa, vamos olhar para Jesus. Ele é o símbolo perfeito do amor de Deus. Não queiramos ser maiores do que o nosso Mestre. Se ele foi rejeitado, nós haveremos de ser, faz parte da cruz. Ele já pagou o preço total da salvação. Porém, a prova do nosso discipulado consiste em cumprir o resto das aflições de Cristo em nossa geração.
Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)
Publicado no jornal O Liberal em 11 de abril de 2017.