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BRASIL, PÁTRIA SEM NAÇÃO

Todos nós sabemos que o conceito de nação difere de estado. Estado resulta de organização política interna e de reconhecimento exterior de outros estados e organismos internacionais. Mas, nação é alma, cultura, é o tecido social, o que pode existir mesmo sem reconhecimento. Assim, ouvimos falar da nação palestina, curda, yanomami.

Quando o estado se organiza, a nação deve continuar pujante. Então, ouvimos falar de nacionalismo, isto é, de uma valorização da nação, de seus valores, crenças, etnia, cultura etc. Muito embora o conceito de nacionalismo tenha se fortalecido como herança da Revolução Francesa, não são os franceses os pais do nacionalismo. Nem os americanos. Britânicos. Japoneses. Não. A nação de Israel é um bom exemplo do que falo, pois sobreviveu por milênios a toda sorte de genocídios. Mas, fosse na Terra Prometida, fosse no exílio, conservou firmes os pilares de sua fundação. E o Brasil?

Bem, o Brasil é uma típica pátria sem nação, termo usado aqui como metonímia. Falta-nos nacionalismo. É impressionante quanto a nossa história política tem desgraçado a memória de nosso nacionalismo. Atiremos todas as pedras, mas, até por uma questão de simbologia, foi durante a ditadura militar que as cores do Brasil mais cobriram o nosso solo. Porém, decorridos quinhentos anos, chegamos a um sentido raso, quase-zero do que significa amar o nosso país.

O povo brasileiro parece muito alheio a muito que se passa neste território. Depois das manifestações das “Diretas-Já!,”, “Fora Collor!” e as recentes manifestações que encheram várias capitais brasileiras, a noção do nacionalismo brasileiro parece ter caído no vácuo. Até agora, sobre aquelas massas que transbordaram a Paulista e Copacabana, parece-me que faltam apertar a tecla “enter”. Embora eu ainda recuse crer, parece-me mesmo que tivemos, sobretudo, manifestações partidárias. Nada muito suprapartidário

Eu fico impressionado com o nosso 7 de Setembro. O Brasil parece morto. Não vemos bandeiras pelas ruas. Decreta-se um feriado vão. Exceto o desfile militar obrigatório e o esforço de alguns mestres do ensino infantil, que colocam bandeirinhas nas mãos de crianças, Sete de Setembro é um deserto patriótico.

Por incrível que pareça, é o futebol que mais consegue reunir a alma brasileira. Durante jogos da Seleção durante a Copa, o Brasil vai à loucura. Como num esquecimento do sentido político do nacionalismo, é a vida privada de alguns homens do futebol – a maior parte vivendo em outros países – que parece representar a gente. Deixar de torcer pelo Brasil é um tipo de sacrilégio para esses brasileiros.

Agora em 11 de setembro, assistimos aos Estados Unidos homenagear os seus mortos. Exceto o aproveitamento político da data, notamos, sim, claramente, que ali se vive um sentimento nacionalista de fazer inveja. Eu sei que alguns de nós podemos criticar isso, dizendo que o nacionalismo deles provém de uma visão de imperialismo, mas nossa opinião pode não estar completamente certa. O processo de formação deles foi diferente. Os americanos têm uma federação diferente da nossa, sabemos.

Já vejo o nosso descaso ainda no primeiro semestre de cada ano: dia 22 de abril não é feriado, porque a tal “descoberta” do Brasil não é algo importante. E agora, no segundo semestre, nem Independência nem República. São feriados, porém, vazios de significado vivo para o povo.

São quinhentos anos de corrupção. Quinhentos anos de transferência das nossas riquezas para os bolsos de alguns. Quinhentos anos insuficientes para gerar consciência política. O Brasil é mesmo uma pátria sem nação. Paraíso de poucos. Inferno de tantos, que sobrevivem nesta miséria verde e amarela. Comemorar o quê? Nacionalismo? O que é isso? No mínimo, somos sinceros: não temos muito a comemorar.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 13/9/2016