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O impeachment que pode salvar o PT

Sem dúvida, o PT é o partido mais interessante do ponto de vista histórico e da conquista política. Ainda me lembro de sua gênese. Dizia-se naquele tempo que o PT era um partido de gente sem formação. Dizia-se que qualquer pessoa simples podia ingressar em seus quadros e concorrer. Pipoqueiro. Mandubinzeiro. Picolezeiro. Bem, acreditava-se que esta era a classe de trabalhadores que compunham a legenda petista. Havia uma quê de descrédito no ar.

No meio de tudo isso, aparece Lula, o emblemático pioneiro. Metalúrgico. Sindicalista. Sem curso superior. Um dedo a menos na mão esquerda. Lula é a expressão, o ícone, o totem desse novel partido, que parece no início sem a mínima chance de polarizar com os herdeiros do MDB e da Arena. Nascido da prole do pluripartidarismo, o PT poderia não ter passado de um partido nanico.

Mas não foi assim. O PT fortaleceu-se tanto que, na terceira tentativa, alcançou o topo da política brasileira. Lula venceu as eleições em 2002, voando alto sobre o tucano José Serra. Lula fez um governo notório em conquistas na área social e na política internacional. Ganhou asas de semideuses. Mitou. E foi nesse espírito que manteve o assento presidencial em 2006, sobrevoando de novo o PSDB, agora com o experiente tucano Geraldo Alckmin.

Em 2011, o PT acenou que não tinha o objetivo de largar o poder, então Lula elegeu Dilma Rousseff. Na verdade, o povo elegeu, atendendendo aos apelos de seu presidente-operário. E o mais improvável aconteceu: desafiando qualquer presságio, Lula reelegeu sua ex-ministra da Casa Civil e, desta forma, garantiu o trono para seu possível retorno em 2019.

Entretanto, 2015 começou um tempo difícil para a sigla de Lula. O partido viu-se envolvido em escândalos, que culminaram na prisão de alguns de seus membros e aliados. Então, chegou a vez de Dilma ser submetida ao terror da democracia: um processo de impeachment, capaz de afastá-la da cadeira presidencial e ainda bani-la por oito anos da vida pública. Estamos agora vendo as primeiras ondas desse tsunami.

Ninguém se engane: o impeachment é um processo primeiramente político, depois jurídico. Daí concluise pela insegurança em se apontar qualquer desfecho. Sim, porque se em direito quase tudo é possível, em política não existe este senão. Depois de Deus, só a política é capaz de resolver qualquer parada. A política pode condenar um inocente, mas também pode condecorar um condenado. Portanto, tudo pode acontecer.

Assim, vou aproveitar essa grande abertura para imaginar que o impeachment pode vir a ser a grande salvação do PT. Por que digo isto? Porque todos sabemos que esse pedido de impeachment é extemporâneo, no que diz respeito ao barulho das ruas. Esse processo não engantinhou até que Eduardo Cunha concluísse que isso era melhor para ele. Então, a motivação soa torpe, algo repugnante, no dizer do Código Penal. Esse impeachment é muito direrente da experiência colorida das nossas ruas. Sem cara-pintada. Sem nenhuma acusação direta comprovada contra a honestidade da presidente. É como se alguém criasse uma religião e quisesse agora nos convencer da existência de seu deus doméstico. É assim que vejo esse processo de impeachment.

A decisão está nas mãos do PMDB. Se Michel Temer quiser logo a faixa, o trono ganha duas letras. Volta o que nunca foi, porque o PMDB está para a política brasileira assim quanto os democratas estão para os republicanos na outra América. O PMDB sobreviveu ao fim do bipartidarismo, acrescendo apenas a letra “p” por causa de suas alianças nesse mar miúdo do pluripartidarismo. Caso o PMDB resolva ficar com Dilma, esqueçam-na. Ninguém quebra essa cumplicidade. Ficarão num casamento perfeito, que já existe, porém, hoje, sem luade-mel.

O efeito da negativa do impeachment será um PMDB mais forte. O resultado será também um PT ainda mais resistente. Será a dobradinha do Planalto. Dilma, que hoje se vê acuada e ridicularizada nas redes sociais, bradará mais forte do que nunca. O PT saneará a sua história e, sozinho ou aliado ao PMDB, virá para as eleições presidenciais com toda a força. Sim, Dilma reconduziu Janot. Dilma assistiu à prisão de nomes importantes. Justiça seja feita: este tempo é único nesse aspecto. Quem sobrevive a uma tempestade não teme mais qualquer onda. Por isso o PT deve vir ainda mais obstinado. Inocentado do fogo do inferno do impeachment, o PT invocará o feito inédito para se conservar na cadeira. Vamos esperar para ver. Este impeachment pode ser a salvação do PT.
Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 8/12/2015