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BRASIL DE MENTIRINHA

Eu sempre fico impressionado com o esforço de países durante a Copa e a Olimpíada. Impressiona-me quanto se investe e quanto se gasta. Milhões. Bilhões. Eu fico impressionado ao constatar quanto as maiores potências do planeta estão dispostas a gastar com algo que de “nacional” tem muito pouco, sendo, esses eventos, em sua essência, o coroamento do esforço individual ou, quando muito, de alguns poucos indivíduos organizados em forma de time. Eu sempre me pergunto, por exemplo, quem foi que disse que o futebol representa o Brasil?

É impressionante como um evento de entretenimento consegue reunir tantos recursos. O mundo para em torno de algo secundário, dispensável, voluptuário. E logo me ocorre que movimentos dessa magnitude não existem em prol do que realmente interessa. Fico pensando o que seria o mundo realizar a cada quatro anos uma “copa” da saúde, uma “olimpíada” contra o crime, desnutrição, falta de saneamento básico, corrupção, baixa renda, a favor de menores de rua etc. Desculpe-me, mas este quadro não sai da minha cabeça.

O Brasil é um país de mentirinha. Estamos atravessando uma crise, mas gastamos horrores com a Copa e agora com a Olimpíada. Bilhões. Pra quê? Para aumentar a nossa desgraça. Obras da Copa até agora não foram entregues, a exemplo dos aeroportos de Manaus e de Fortaleza. É incrível! O show de abertura da Olimpíada não confere com a realidade do nosso povo. Sem dúvida, vivemos uma política de pão e circo.

Brasil de mentirinha. Somos uma nação de alcoólatras escravizados pelo futebol. Somos uma nação de corruptos na política e na religião. Somos um Brasil de mentirinha, onde se diz que não há caixa para aumentar o salário mínimo, e nega-se com banquetes para os deuses do Olimpo. Ilusão.

Não ganhamos nada. No Brasil de mentirinha, chutar a merreca de um pênalti rendeu meio milhão de bicho para cada canarinho. Grande coisa! Quem ganhou, então? Ganhou a indústria do esporte, a indústria de bebidas e cigarro, ganhou a política, que aplicou um poderoso narcótico no povo, fazendo com que chamemos de nosso o que nosso nunca foi nem jamais será.

Você já pensou o que seria a união do mundo em prol dos grandes temas da humanidade? Por que as nações não se unem para exterminar nossas palafitas? Por que não se unem para salvar os refugiados? Porque o mundo adora viver de ilusão, então os impérios esportivos tratam de vender seus produtos superfaturados. Por que o chute contra uma rede vale tanto? Que negócio é esse? Quem construiu essa escala de valores? Eu não sei, mas não é real. Brasil de mentirinha.

Alguém pode dizer: olhe, a Olimpíada movimentou o comércio, abarrotou a rede hoteleira no Rio. E eu direi: bobagem! Puxe o extrato neste Brasil de norte a sul, e veremos que isso não paga o prejuízo causado pela bebida e, principalmente, pela perda de consciência em achar que tal coisa representa o nosso país. Mas outro dirá, parafraseando Jesus: se você não crê nisso, creia pelo menos nas obras que a Olimpíada vai deixar ao povo. Amigos, eu chamo essas obras de afronta, pois não foram feitas para nós, mas para um evento esportivo, cabendo ao povo se apropriar, no que couber, dessas obras-fantasma. Elas representam uma ofensa para o cidadão nacional, pois não foram projetadas originalmente para os lugares nem para as pessoas onde estão agora.

Eu torceria por uma “olimpíada” com os estudantes do mundo. Queria ver o Brasil ser reconhecido porque consegue fazer o maior acesso estrangeiro em Harvard. Adoraria que a nossa política ganhasse medalha de ouro contra a corrupção, tornando-se exemplo para o mundo. Queria ver as nossas igrejas serem espaços olimpicamente santificados, onde a finalidade não fosse o vil metal, mas aquela coroa de glória imarcescível de que falou o apóstolo Paulo. Aplaudiria de pé a valorização de nossa produção acadêmica. Eu não perderia nenhum jogo onde o Brasil ganhasse o ouro pela transparência nas contas públicas. E junto com isso, poderia até assistir, quem sabe, ao Neymar chutar um golzinho também. Mas só isto, não. Eu não gosto deste país, que, para dizer que o ouro é nosso, torra nossos impostos para cunhar uma pequena medalha. Brasil de mentirinha.

Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 23/8/2016