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BELÉM, UM PASSEIO COM SEREIAS E BOTO

Ontem, feriado, resolvi fazer uma caminhada diferente. Ainda cedo, saí dos entornos da Praça Batista Campos para ir ao Ver-o-Peso. Não tinha intenção nenhuma de escrever sobre isto, mas o que vi acabou virando a pauta.

Belém é uma cidade bonita, não resta dúvida, principalmente o que nos foi legado da era Lemos. Depois de algumas quadras, cheguei à praça. Bela. Com árvores imponentes, faz inveja para os grandes centros urbanos brasileiros. O que outrora foi uma garça solitária virou ali um clã de asas brancas, que enchem os laguinhos e as copas das samaumeiras. Porém, nem tudo são flores. A calçada da praça está esburacada, um risco para os seus frequentadores. A grama seca, nem tanto pelo clima: por falta de uns jatos d’água pela manhã e pela tarde.

Dois passos à frente, sentido Serzedelo Correa – vulto nobre –, as velas estão acesas no cruzeiro desse prometido museu a céu aberto. O cemitério da Soledade bem merecia maior atenção. Apesar dos furtos, ainda é um excelente acervo do nosso patrimônio histórico e cultural. Mármores nobilíssimos desafiam a sagacidade dos colecionadores que tantos se especializaram no crime da receptação. É desolador olhar a diferença entre esse cemitério público e aquele do outro lado da rua, onde personalidades importantes da Igreja Anglicana dormem seguros. No Soledade, a regra parece ser a violação. Pisando a Presidente Vargas, outro contraste que remonta séculos: à direita, o Theatro da Paz, símbolo máximo da nossa Belle Époque, dos tempos do ouro branco, que, profetizada a saga de Serra Pelada, nos trouxe tanta glória e tanta miséria. Impressiona ver tantos moradores de rua, alguns despertando, outros enrolados em seus lençóis às vezes nem tão sujos, comparados com o solado dos pés, negros, desses legítimos pés-descalços. Em frente ao antigo IEP, a Praça da Sereia é uma decadência de fazer qualquer lenda morrer de vez. O que deveria ser um belo chafariz tornouse uma peça de sucata.

A parceria da prefeitura com a iniciada privada para restaurar aquela obra de arte não funcionou bem. Ficou a marca do comércio. Ruíram os serviços. A cena é deprimente, misturando sereias sedentas, grades arrancadas e um sem-número de homens e mulheres amontoados aos pés do monumento ou sobre os bancos, igualmente malconservados. Uma esticada, e chego à Rua Santo Antônio/João Alfredo. Por um momento, imagino ter chegado à Calle Florida, Buenos Aires. Uma bela calçada foi construída de ambos os lados do logradouro. Uma cerâmica bela, que só não resiste mais porque ninguém respeita a sua constituição. Carregadores e ambulantes arrastam pesadas caixas, algumas com base de ferro, marcando, furando e quebrando aceleradamente uma beleza recente. O casario impressiona. Com a retirada de muitas placas, ficou a descoberto um passado de glória desta cidade que em algum contexto superou a capital federal da época, o Rio. Construções no estilo art nouveau misturam-se a outras imponentes edificações, fazendo coro com a majestosa Paris n’América. Em alguns trechos desse corredor, temos uma muralha de beleza e arte, que só perde mesmo para o azul do céu. Capitéis. Colunatas. Estátuas incríveis adornam os telhados, como a insistir numa vida faustosa que não guarda muita semelhança com as conversas que ressoam entre vendedores e fregueses de café, quase sempre discutindo futebol, mulher e novela. Um abismo cultural está contido entre o pé direito desses casarões e o estilo que hoje se vive na linha horizontal dessas duas ruas únicas, única, sem que eu entenda por que se muda nome do que culturalmente é uníssono.

Após ladear a Oriental do Mercado, agora chego ao Ver-o-Peso. Minha constatação não muda muito. O Vero-Peso parece nunca estar pronto. Não tem nada com Lutero, mas adora uma reforma. Entra ano, sai ano, e a gente não enxerga avanços. A área útil está reduzidíssima no mercado de peixe. Caranguejo? Só do lado de fora, quase caindo n’água, aumentando ainda mais a insegurança. Aí, resolvo ver o rio, lá das ruínas do que me parece um trapiche. Então, não acredito nos meus olhos: botos, um, dois, três, uma família desses alegres cetáceos. Jacques Cousteau não precisava ir tão distante. O boto cor-de-rosa vive no Ver-o-Peso. Passeia no Guajará. Dá show de graça para quem gosta de ver. Eu vi, e gostei. Fiquei minutos admirando aquela cor tão diferente de nossas águas barrentas. Valeu mesmo o passeio. Belém é muito bela. É uma sereia, que só não canta mais porque falta quem lhe trate com carinho. Que o boto não tente subir.

Rui Raiol é escritor (www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 9/12/2014