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EMOÇÕES LÍQUIDAS

A subjetividade não pode ser mensurada. No máximo, mensuramos as consequências dela. Adjetivos são empregados para exprimir a qualidade das emoções. Assim, dizemos que a raiva de alguém é uma coisa passageira. No Direito Penal, dizemos que a morte teve motivo fútil, que o ato é doloso ou culposo. Dizemos que alguém estava dominado por uma violenta emoção. Porém, qual a medida dessa subjetividade? Não sabemos.

Advérbios também são invocados para explicar o modo e a intensidade das emoções. Então, afirmamos que alguém está com muito ódio, com pouco amor, dizemos que fulana está perdidamente apaixonada. O advérbio esforça-se para nos aproximar do mundo emocional do sujeito da oração, mas isto não é preciso. E se pudéssemos tornar a emoção liquefeita? E se pudéssemos medir emoções em litro? Certamente, estaríamos bem mais próximo da verdade.

A ideia de tornar algo líquido é essencial na execução de sentenças judiciais. Por exemplo, no Direito Penal, temos que a pena tipificada no Código não é a mesma que será aplicada a todos os culpados. Ali, temos a chamada pena em abstrato. No caso concreto, depois de observadas atenuantes e agravantes e outros detalhes criminais, é que o juiz fará a chamada dosimetria da pena, nascendo a condenação líquida. O mesmo se diz no Direito do Trabalho: não basta afirmar que o autor tem razão, haverá de ser “liquidada” a sentença. E, no campo emocional, como poderíamos liquefazer as nossas emoções?

É claro que não podemos. Do modo como fazemos com a matéria, não. Todavia, de alguma maneira a ideia pode nos ajudar. Será ótimo para os nossos observadores e, principalmente, para nós mesmos. Então, vamos utilizar o litro.

Imagine que todas as nossas emoções caibam apenas num litro. Amor. Ódio. Medo. Coragem. Raiva. Calma. Vingança. Egoísmo. Altruísmo. Não importando nossa história de vida, idade, raça ou religião, todas as nossas emoções possam ser transformadas agora em líquido que caiba exatamente dentro um litro de vidro transparente.

Como está a proporcionalidade das nossas emoções nessa medida? Considerando o volume de mil mililitros da nossa carga emocional, como essas emoções estão distribuídas?

Bem, em princípio, todas as emoções podem estar presentes. “Devem” estar presentes, diriam especialistas do comportamento, segundo os quais mesmo emoções consideradas negativas são, na verdade, indispensáveis ao perfeito equilíbrio desse litro. Segundo esses estudiosos, precisamos de uma dose certa de medo, raiva e tristeza, por exemplo. Segundo dizem, é o medo que produz a coragem. É a dúvida que nos leva à certeza. É a solidão que nos faz valorizar a companhia. Mas não exageremos na dose dessas emoções ditas negativas. Basta um pouco. Assim como entre o remédio e o veneno, a diferença está na dose.

Visualizando esse litro, imagino que pelo menos dois terços dele devem ser ocupados pelas boas emoções. Penso que o amor deve ocupar, no mínimo, a metade da nossa medida emocional. Meio litro de amor. Será um bom começo. Na luta diária, somos muito demandados, porém, em tendo a nossa vida ajustada desta forma, vamos tirar de letra. Somando à medida do amor, temos uma boa percentagem de justiça, paz, solidariedade, altruísmo, mansidão e congêneres. Alcançamos agora dois terços do litro.

Geralmente, ficamos muito preocupados com essas últimas emoções, afinal de contas parece muita responsabilidade administrar essa miudeza. A vida é muito corrida para a gente viver se preocupando com pequenas emoções. Talvez por causa disto alguns precisem de um manual, bilhete no bolso, nota no celular, qualquer coisa que nos desperte para não diminuir a dose já mínima dessas boas emoções. Então, percebemos um fenômeno: olhando nosso litro transparente, vemos que todas essas emoçõezinhas mergulham na área do amor. Misturam-se. Fundem-se num só líquido, elevando o nível da emoção dominante. A razão disto? O amor é a base de todas as emoções construtivas. Sendo assim, não precisamos nos preocupar tanto com essa miudeza, basta aumentar o próprio amor, e tudo virá a reboque.

Com as nossas emoções líquidas e visíveis por todos, cairiam por terra toda suspeita e todo juízo errado sobre nós. “Será que ela me ama?” nunca mais seria ouvido. “Desconfio das intenções dela”, coisa ultrapassada.

Como está a nossa medida de amor agora? Meio litro? Dois terços? Transbordante? Lutemos por isto, reduzindo emoções negativas à sua dose mínima. Meio litro de amor é uma boa medida, mas não tenha medo de aumentar a dose. Fará bem para os outros e, principalmente, para você mesmo.

Rui Raiol é escritor (www.ruiraiol.com.br)
Publicado no jornal O Liberal em 9/8/2016