ARTIGOS EM JORNAISNOTÍCIASÚLTIMAS NOTÍCIAS

INSTINTOS HUMANOS

Instintos animais encontram-se presentes no homem de qualquer sociedade, tempo e condição socioeconômica. Nosso orgulho não resiste a simples testes de animalidade. Comecemos pelo fator fome.

O homem continua tão primitivo quanto aos demais seres. Pela comida, é capaz de tudo, inclusive de matar. Calma! Eu sei que esta afirmação é chocante, porém, é exatamente o que fazemos na maioria das vezes para saciar nossa necessidade de alimento. Matamos. Não existe nenhum ser que mate mais do que o homem.

Olhando os programas de vida animal, quantas vezes não nos afligimos pelo abate da presa. Quantas vezes não criticamos veladamente a ação dos predadores. Mas é exatamente isto que fazemos. Diferente das comunidades de subsistência, não corremos mais atrás da nossa comida, todavia, outros fazem isso por nós. As cidades escondem um mundo de morte pela nossa sobrevivência. Bilhões de animais são mortos todos os dias para alimentar uma população cada vez maior no mundo.

A morte da presa segue invisível aos nossos olhos. E temos outras diferenças: matamos para estocar e matamos até por prazer. E por causa de comida podemos praticar atos repulsivos aos nossos códigos de comportamento. Viu a Venezuela? Pois é: se não temos comida, podemos saquear, exatamente como fazem alguns no reino animal dito inferior.

Território. Somos os principais demarcadores do planeta. Não satisfeitos com a barreira da nossa presença, tecemos cercas e muros. Eletrificamos. Colocamos guarda. Placas ordenam a distância. Ofendículos variados. Marcamos o nosso território. Registramos propriedade. Defendemos posse. Temos do direito a permissão para reprimir com as nossas próprias forças todo agente invasor. Esbulho possessório que confirma que somos animais territorialistas.

Em qualquer palmo de chão queremos logo dizer quem é que manda. Ai de quem abusar do nosso direito. A territorialidade é uma das maiores causadoras de desavença e até morte. Morte no campo. Morte nas cidades invadidas pelos que confessam não terem um teto. É um direito reconhecidamente erga omnis, reprimível, oponível a todos. Nessa relação, de um lado está o mundo; no outro polo, apenas o proprietário.
Sexo. Eis um extinto praticamente intacto. Machos posam com suas fêmeas como um troféu conquistado pela masculinidade, ou não, como diria Caetano. Ai de quem ousar bulir com isso. Brigas costumam explodir. A conquista é uma dança complexa. Nenhum animal é mais complicado nessa área. Até chegar ao casamento, o novo cônjuge deve ter vivido céus e infernos com a sexualidade. E não pensemos mesmo que tudo terminará nas bodas. Não. É agora que a noção de propriedade é mais estabelecida. Casamento é contrato. Lei. Romanticamente, cada qual afirma ao outro a sua propriedade. “Tu és meu/tu és minha” é a declaração que esconde a ideia de posse. É um aviso mútuo. Aviso público. Por causa de infidelidade, a morte pode surgir nesta sociedade animal.

O sexo é uma das áreas mais complexas do ser humano. Embora a nudez seja algo até público às vezes, embora a anatomia humana seja coisa de enciclopédia, visível e audível na Internet, essa nudez continua atraindo, fascinando, seduzindo. E, via de consequência, muitos problemas advêm desse jogo entre macho e fêmea, incluída aqui a homossexualidade, a qual, como tratamos em artigo anterior, também procura essa a diferença em fenótipos semelhantes.

Vamos fechando o artigo de hoje com estas noções: fome, território e sexo. Elementos animalescos que nós conservamos praticamente intactos e às vezes até os “rebaixamos” mais com a nossa vida evoluída de quem, mesmo estando no topo, não deixou de ser bicho.

<em>Rui Raiol é escritor (Site: www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 2/8/2016</em>