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NICE E O EXTREMISMO RELIGIOSO

Enquanto um caminhão avança numa pista fechada para o trânsito, dezenas de corpos se espalham num rastro de sangue e morte. Dentro do veículo, o motorista sorri à medida que acumula homicídios, transformando a Riviera Francesa num mar vermelho. Horas depois, o Estado Islâmico reivindica a autoria do atentado. Por que a religião pode ser o fundamento desse tipo de coisa?

A religião é um dos conhecimentos mais complexos. Diferente da ciência e da filosofia, a religião é um tipo de saber que lida com abstrações mentais, divindades e crença na existência de outros mundos, um tipo de conhecimento onde o saber enciclopédico e filosófico não bastam.

A religião está muito acima da ufologia, embora esta também adquira uma faceta religiosa às vezes. Na religião, não existe dúvida quanto à existência de outros universos, espirituais e até mesmo materiais. A partir daí, toda a visão de mundo de um adepto pode mudar radicalmente.

O método religioso é empírico. Baseia-se, portanto, na experiência que o crente tem com a ideia religiosa. Para isto, vale-se de escritos sagrados, tradições e até de lendas. O modo de percepção de cada um não é original, mas vem como resultado da somatória do andar de sua religião ao longo do tempo. Desta forma, muita coisa considerada “sagrada” hoje, não era assim em seu berço, mas sofreu mutações com o passar dos anos e séculos.

A forma de governo da religião também exerce vital importância na formação da crença, às vezes misturando-se com ela, produzindo normas quase sagradas, postas numa hierarquia no mínimo “indiscutíveis” para os que estão na base dessa pirâmide, conhecidos como baixo clero e fiel. E como tudo se processa? Dentro da mente individual do adepto. Mesmo as manifestações coletivas da fé, como procissões, congressos, caminhadas etc. só podem ser assimiladas desta forma. Assim, mesmo que um adepto pertença a uma comunidade de milhões, e com ela se reúna, espiritualmente está só nessa percepção da sua religião.

Um dado é importante antes de falar sobre o tema de hoje, propriamente dito: a aproximação da religião da figura política de estado tem um peso significativo, seja isto quando a própria religião assume esses ares, seja quando por isso, ou mesmo sem, alie-se ao poder político temporal. Numa análise do Estado Islâmico e da Igreja Católica em tempos de Inquisição isto é o fundamento. A religião assume um papel de miniestado, com códigos próprios e uma estrutura que não tolera discordantes.

Não uso aqui o termo fundamentalismo porque o mesmo não é elucidativo. O radicalismo, sim, precisa ser combatido. Toda crença tem seus fundamentos, noção de certo e de errado, que são uma das características próprias do conhecimento religioso. Agora, agir de modo extremo com as demais pessoas deve ser evitado. Aqui, quase sempre o ato considerado religioso de per si, pelo indivíduo, é reputado crime nos códigos penais das sociedades ofendidas.

No caso do Estado Islâmico, a denominação já diz: estado, ou seja, trata-se de uma visão religiosa distorcida pelo viés político, onde a noção de crença, em sua origem, encontra-se bastante afastada dessa gênese. Nesse cenário, nós, espectadores, já perdemos completamente a possibilidade de uma leitura depurada do que seja a religião praticada por seres humanos tão atrozes. Para nós, são criminosos. Porém, dentro da cabeça de seus adeptos, toda violência está justificada em nome de um mundo religioso cada vez mais hermético.

Geralmente, a falta de reflexão mais aprofundada sobre o sentido da vida e da própria religião, pode levar seus adeptos a atos extremos. O sectarismo nasce daí. Até hoje, eu sofro preconceito por ser evangélico. Até hoje, vejo repartições públicas ignorarem a existência de outros credos dentro de seu corpo funcional e convidarem “todos” para a Missa do Círio, por exemplo, quando sabemos que a missa tem rito próprio, com confissões de fé que não são do senso comum na cristandade. Parece que não, mas isto é uma forma de lidar com a religião de modo extremo, segregando pessoas, desprezando-as etc. Particularmente, isso não me atinge porque estou bem habituado com a questão, todavia, outro pode esboçar uma resposta diferente.

Então, veja, ao abrir este parêntese, ousei lançar um olhar sobre a mente de extremistas. Nada justifica o crime. Nada. Porém, quando entramos no assunto religião, o céu é o limite. Quem tem a sua crença, considere que outros também podem ter. Sejamos humildes quando o assunto fugir das dimensões do mundo natural.

<em>Rui Raiol é escritor (www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 19/7/2016</em>