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ESTREITÍSSIMA FAIXA

Nossa faixa de vida é muito tênue. A biosfera é rasa. Nela, as distâncias abissais são medidas de oceanos e montanhas. Profundidade e altura. A atmosfera é um anel delicado que circunda o nosso planeta. Longe dessa esfera de gás e vida, existe o nada, o vazio

A Terra é azul por causa dessa esfera gasosa. In natura, o Universo é negro, escuridão máxima. De todo esse conjunto, uma estreitíssima faixa do mundo é, de fato, o espaço onde vivemos. Se considerarmos as nossas construções, com toda a flora e fauna contemporâneas, percebemos que a nossa fatia é mesmo
estreita, delicada, estreitíssima faixa.

Se você olhar agora na linha do horizonte, não verá tantos metros edificados. Acima do solo, pouco se ergue. Mesmo os arranha-céus não arranham nada. Não arranham nuvens, não arranham a chuva, não podem arranhar os céus. Até os pássaros zombam deles. Olhando, o que você vê? Um recorte de edificações cuja altura varia de acordo com a renda e o destino do prédio.

Mas é baixo, muito baixo!

Dubai se orgulha em vão. Babel. Eiffel. Gizé: rascunhos de Saint-Exupéry. Nada se enxerga do alto. Perspectiva em vão. O Cosmos os chama de anão. Nanico. Nada, nadinha. Somente a Grande Muralha se exibe. Mas isto porque é uma linha. Verticalmente morta. Nula. Despercebida. Civilização tão estreita, tênue faixa de vida.

E assim desembarcamos aqui. E logo buscamos a nossa faixa de construção. Acima de nossas cabeças, o mundo, infinito, insondável, onde a segunda estrela mais perto não nos permite visitá-la jamais. Viajando a milhares de quilômetros por hora, acima o Cosmos, com seus bilhões de bilhões de gigantes anãs e supernovas, neste planeta Terra, voamos. Voamos no mundo e dentro dele, mas só olhamos a estreitíssima faixa.

Casas. Escolas. Hospitais. Igrejas. Cemitérios. Shoppings. Danceteria. Praças. Ruas. Arborização. Faixas. Travessia: estreitíssima faixa da nossa vida, onde muitos andam em círculos. Labirintos. Perdidos em tão pouco espaço, brigando pelo que não se vê um pouquinho acima da Terra.

E se a gente aguçar bem a vista, veremos mesmo que de todos o menor sou eu, você, somos nós, metidos a donos, que se ufana de arranhar o que não pode sequer fazer cócegas no céu. Pequenos… Um metro? Baixinho. Dois metros? Gigante! Uma trena tão curta de medida humana. É claro que estou falando de altura, proporção. Como podemos variar assim tão pouco? Como podemos ser medidos entre um e dois?

Não entendo o porquê do orgulho, do ódio, do querer enganar. Uma faixa tão estreita de vida, com um homem pequenino caminhando ao pé de mangueiras “gigantes”! A faixa é estreita, não adianta inventar. Se alguém tem um motorzinho possante, um carro, para que pisar fundo, se não pode decolar? E se puder, são só mais alguns míseros pés, que nos fazem cruzar os dedos quando procuramos, atônitos, nossa faixinha enfaixada pelas nuvens.

O avião decola rapidamente, e cadê a nossa faixa? Cadê a nossa casa, o carro, a empresa? Cadê a igreja, o shopping? Tudo ficou lá embaixo naquela estreitíssima faixa. E a gente voa, voa, e quer logo encontrar a faixa. Que o piloto enxergue bem, está marcada! Queremos voltar para casa. O Universo é grande, mas vivemos nessa faixa. Só não vamos andar em labirintos. Só não vamos deixar de olhar para cima nesta estreitíssima faixa.

Publicado no jornal O Liberal em 12/7/2016