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CORRUPÇÃO, MORAL E SOCIEDADE

<em>Publicado no Jornal O Liberal em 7 de junho de 2016.</em>

Vivemos uma crise moral. Ocupamos nosso tempo com a discussão deste tema. Sem nos atentar às vezes, nossa atenção é reivindicada exageradamente para comentar condutas reprováveis de nossa sociedade. Isto produz um efeito perverso, pois quando empregamos muito tempo para debater e tentar corrigir condutas alheias, sobra-nos pouco para a nossa própria edificação. Então, somos atingidos duplamente. Uma relação de causa e efeito.

A regra é antiga, foi ensinada por Jesus: temos defeitos em nós para serem corrigidos, porém, mesmo sendo sinceros e não hipócritas, como na citação bíblica, a discussão social nos afeta. Se vivêssemos numa sociedade honesta, haveríamos de questioná-la muito menos. Questionaríamos, por exemplo, a distribuição do orçamento público nas diferentes áreas sociais. Questionaríamos prioridades, métodos e escolhas políticas, mas não discutiríamos tanto o caráter, a honestidade, a hombridade, a moral e a ética. Como via de consequência, este nível de discussão nos puxaria para cima da escada do desenvolvimento pessoal. Discordaríamos de opiniões e decisões políticas, mas não discutiríamos tanto a base, não discutiríamos malversações, fraudes, propinas, tráficos de influência.

Uma sociedade moralmente evoluída deixa mais tempo de sobra para que seus cidadãos cresçam. Não é o nosso caso. No Brasil, temos poucas referências de moralidade. Isto não é exclusividade política, alcança praticamente todos os setores, desde a União, municípios paupérrimos e associações, como clubes de futebol, igrejas e sindicatos. Falta-nos exemplo para seguir. Faltam-nos pessoas que possamos olhar e dizer: quero ser igual a ela, quero ser igual a ele! Por incrível que pareça isto existe, mas no sentido invertido. No Brasil, torna-se modelo quem consegue se dar bem a qualquer custo. Uma jovem seminua dentro de uma universidade pode de repente tornar-se uma artista, um símbolo contra a intolerância. Uma mulher recatada pode ser rejeitada. Daí, concluímos que além de roubar muito do nosso tempo e produzir uma mentalidade rasa, a questão moral torna-se a nossa evidência, a referência, o exemplo a seguir.

Esta semana, os jornais do mundo estamparam a decisão do Papa Francisco de considerar puníveis bispos pedófilos. Foi manchete. Por quê? Isto não precisava ser dito, é da essência da Igreja, é da essência de uma instituição religiosa cristã, onde o respeito ao próximo é condição sine qua non dessa igreja. Mas precisa ser dito porque a Igreja, em sentido amplo, não está livre da crise moral, sendo, aliás, um dos piores antros desse tipo de mal. Claro, elogiável a postura do Papa. Aplausos para ele. Lágrimas para uma instituição onde esse crime seja tão recorrente. Lágrimas para todas as igrejas cristãs que envergonham o nome de Cristo.

O Brasil tem debatido muito o estupro da jovem fluminense. Correto. É um crime terrível. Deve ser punido, inclusive dentro de casa quando maridos violentarem suas esposas depois de voltarem bêbados dos encontros com suas amantes. Agora, qual a situação do Brasil e do mundo quanto ao aspecto moral? Somos uma sociedade confusa, onde o certo passou a ser chamado de errado, e vice-versa. Hoje, somos uma sociedade que legaliza seus comportamentos sem averiguar princípios indisponíveis. Não falo de princípios religiosos. Falo de princípios morais que devem nortear toda sociedade que não deseja ser uma metamorfose ambulante, mas ter a sabedoria de auscultar princípios que não estão apenas nas enciclopédias, mas sejam o âmago da própria existência.

Nosso país está mergulhado na promiscuidade. Somos uma nação lasciva. O estupro é o vômito desta sociedade. É uma tétrica expressão do tipo de sociedade que nos forma. Músicas, novelas, mídias sociais, literaturas carregadas de promiscuidade. Hoje, não se estuda o comportamento da sociedade através dos princípios que estamos quebrando. Hoje, queremos legalizar o que em sua essência não pode ser legalizado. Somos uma sociedade individualista e inconsequente, capaz de rasgar os códigos milenares, como a Bíblia, para não repensar nosso tecido social apodrecido e auscultar a profecia que aponta o destino de um povo que está se autodestruindo.

Admiramos as estrelas e os planetas. Aplaudimos Newton e sua brilhante teoria. Porém, não queremos admitir que existem leis superiores que nos regem também, admitir que algumas escolhas serão sempre relativas.

Então, perdemos para a inteligência de uma pedra bruta de asteróide, que, de tanto observar suas leis superiores, pode ter seu caminho detectado muito cedo por observadores da Terra. É isso! Agora vou cuidar de mim.
<em> Rui Raiol é escritor (www.ruiraiol.com.br)</em>