ARTIGOS EM JORNAIS

A diferença que fazemos para o mundo

Que diferença nós fazemos para o mundo? Nós, seres humanos, inteligentes e ditos superiores? Resposta: nenhuma diferença positiva. Por incrível que pareça, representamos a única ameaça à sobrevivência do planeta. Sem nós, a Terra viveria muito bem, obrigada. Vamos ver?

Para chegarmos a essa constatação, precisamos olhar o testemunho da história. Quanto mais retrocedemos séculos e milênios, mais a vida na Terra se torna fortalecida. Por exemplo, há 511 anos, quando a população do Brasil ainda era silvícola, nosso país era um lugar paradisíaco. Rios maravilhosos. Florestas intactas. Atmosfera pura. Uma biosfera perfeita. Esta constatação serve para toda a América, Europa, África, Ásia, e cada palmo onde a presença do homem atual se pode notar.

No decurso destes milhares de anos, avançamos em destruição. Transformamos florestas em desertos. Secamos rios. Produzimos enchentes. Esgotamos recursos naturais não-renováveis. Cavamos abismos. Poluímos e degradamos tudo. Não existe dimensão sobre a Terra que não tenhamos tocado. Comprometemos água, terra e ar. Sabemos que hoje o mundo cambaleia para o caos. Nossa geração assiste à morte agonizante do planeta. No Brasil, todos os meses, arrancamos centenas de quilômetros quadrados da nossa floresta. Parece que não está acontecendo nada, mas a desertificação é só uma questão de tempo, cronologicamente prevista, estatística simples.

E o que aconteceria se deixássemos a Terra agora? Ela seria salva, pois a natureza – incluindo aqui todos os seres ditos inferiores – é mais sábia do que o homem que a escraviza. Vamos ver também?

Se por algum jeito, desocupássemos a Terra agora, a natureza reencontraria o seu caminho. Séculos a frente, e Belém estaria dominada pelas árvores. Com o decurso do tempo, a chuva teimosa de todas as tardes arrebentaria os asfaltos mais resistentes. Aos poucos, a mata iria encobrindo o chão. Só as atuais torres sobrariam aqui e ali, como memoriais silenciosos de nossa triste passagem. Em plena Almirante Barroso nasceriam árvores frondosas, que, paulatinamente, iriam fechando corpo. Bosque, Museu e Utinga seriam uma só floresta.

Com o seu poder de autopurificação, as águas iriam se livrar de nossos avançados poluentes. Rios de dejetos seriam leitos saudáveis. O Tietê estaria cheio de peixes. A doca de Souza Franco também receberia seus cardumes. Sem a fumaça tóxica de combustíveis, a atmosfera respiraria aliviada. São Paulo teria boa qualidade de ar o ano inteiro. Saindo o predador humano, animais em extinção estariam a salvo.

Neste ensaio, nada do que o saber humano produziu teria valor. A ciência seria nula. É incrível imaginar que aviões de última geração, trens velocíssimos, indústrias, pontes gigantescas e tudo mais não teria a mínima serventia à vida remanescente. Tudo envelheceria com as cidades-fantasmas.

Naturalmente, não estou pregando a extinção da raça humana. Todavia, uma reflexão desta é boa para medirmos a nossa tão propalada importância. Bom para avaliar nossas vaidades, nossos doutorados e tanto saber que temos produzido. Olhando assim, parece que a ciência, em grande parte, é apenas um quebra-galho, capaz de inventar coisas que não servem para o mundo. Existe para atenuar aqui e ali nossas mazelas, fruto da péssima administração que fazemos da vida como um todo. Sim, porque evoluímos males de todo gênero. Miséria. Doenças. Injustiça. Poluição. Evoluímos a morte, nossa e de nosso maravilhoso planeta.

A existência da vida na Terra não custa nada. Não requer ciência. Nem precisa de nossa sabedoria. Nós é que precisamos do mundo. Vamos cuidar bem dele.

Publicado no jornal O Liberal em 4 de outubro de 2011.