ARTIGOS EM JORNAIS

Não me envergonho

Durante muitos anos, tenho observado um comportamento curioso quanto ao assunto Deus. Noto que há uma significativa timidez envolvendo esse tema. Mesmo entre pessoas que se declaram teístas e cristãs, não é muito simples arrancar delas um testemunho público sobre a sua fé. Há um quê de mistério. Timidez inexplicável. Uma dificuldade enorme de trazer a público o que se vive entre quatro paredes de uma igreja.

Olhando assim, parece que muitos cristãos vivem em dois mundos. Um mundo circunscrito aos assuntos da fé, etéreo e reservado; e outro, público, onde a vida corre normal. Mundo de gente diversa, de mil ideias e proposições. Mundo onde não existe tanta cerca entre vida privada e pública, em matéria de convicções.

Por onde andamos, as pessoas estão abertas a falar de suas crenças. Futebol, política e economia dominam alguns diálogos. Violência, televisão e relacionamentos, outros encontros. Para esses temas, não há pedido de licença. Chega-se e fala-se. E, de repente, todo mundo está envolvido, emitindo opinião, participando da conversa. Mas, experimente falar sobre Deus a grupos anônimos e até mesmo a uma roda de amigos. É água fria na fervura. Silêncio quase geral. Monossílabos. Olhares esquivos e suspiros. Bem diferente do que algumas dessas mesmas pessoas são na mágica dos templos.

No elevador do local onde trabalho, havia um ascensorista que adorava mexer com a gente. Sem querer saber de que eu gosto, ele sempre me perguntava às segundas-feiras se meu time havia ganho, se eu tinha tomado umas louras, se havia me divertido bastante etc.

Um dia, saí de casa preparado. Quando ele me indagou se eu havia curtido o fim de semana segundo o referencial dele, respondi: “Sim. O final de semana foi uma bênção! Participei de um culto muito alegre. Jesus fez maravilhas na igreja que frequento. Foi tanto poder! Tanto fogo…” “Fogo?” interrompeu ele, preocupado. “Então, sua igreja pegou fogo? Chamaram os bombeiros? Alguém ficou ferido? Deu pra apagar o incêndio?…” Respondi: “Pra apagar, não. A gente queria era mais. Foi tanto fogo! Tanto Fogo! Jesus batizou com o Espírito Santo, renovou, salvou, curou, libertou… Foi ótimo!”. Ainda hoje lembro da cara daquele jovem e da lotação vertical, paralisada, quase não acreditando que eu tivera coragem de revelar meus mistérios.

Deus ainda é um assunto proibido. E religião, tema privadíssimo, personalíssimo, que muitos parecem viver numa relação hermética. Ao seu modo individual, trancado nas paredes do cérebro. E, se conseguimos furar esse bloqueio, a conversa não dura muito tempo. Colegas tratam de voltar rapidinho a seus postos. Vizinhos recolhem-se. E jovens se despedem porque têm muita coisa para fazer.

Escrevendo aos cristãos de Roma, Paulo anunciou que breve os visitaria para compartilhar uma palavra. Que estava decidido a pregar na capital do império, pois não se envergonhava do evangelho. E, decorridos dois milênios, parece que o apóstolo está escrevendo para a gente. Para gente que ainda se envergonha de assuntos relacionados à pessoa de Deus.

De algum modo, à medida que vamos sendo iluminados, torna-se impossível manter a timidez. Deus se torna o nosso eixo. Motivo. Alvo. Rumo. Tudo. Então, a gente vai querer, pelo menos, que Ele tenha um espaço comum nas conversas. Foi assim com o evangelista americano Dwight Moody. A evangelização era-lhe quase um ato biológico.

Certa vez, em um banco, Moody virou-se para um companheiro de fila, e pôs-se a falar sobre Deus. O homem, indignado, bravejou: “Cuide de seus negócios!”. “Mas esse é o meu negócio!” respondeu Moody. “Então, você deve ser o tal de Moody!” O evangelista disse: “Sim. Muito prazer! Deus é o meu negócio!”.

* Publicado no jornal O Liberal, em 2 de agosto de 2011.