ARTIGOS EM JORNAIS

Exagerada humanização da fé

A popularização da fé produz efeitos bons e maus. À medida que humanizamos os seres divinos, nossa dificuldade de alcançar o mundo espiritual em seu grau absoluto produz distorções. De repente, anjos, santos e o próprio Deus tornam-se tão parecidos conosco que a transcendência do mundo divino entra em declínio, empobrece abruptamente.

O cristianismo, em sua essência, é um fenômeno de humanização da Divindade. Segundo sua principal crença, o Filho de Deus veio ao mundo em forma de homem. Jesus, o Messias esperado, nasceu, viveu e morreu entre nós. Então, sobretudo, a partir desse fato, a ideia de um Deus humano arraigou-se à base da religião originariamente judaica.

O prejuízo da verdadeira concepção de Deus, que tem seu ápice na Encarnação, deriva da falta de atenção ao caráter eterno desse mesmo Jesus. A popularização da humanização do Filho de Deus não consegue enxergá-lo preexistente a seu nascimento. Tampouco é capaz de vê-lo de modo sobrenatural na Ressurreição, subindo ao Céu e, muito menos, em seu estado atual naquela dimensão. E, se conseguimos vencer essas balizas existenciais de Jesus na Terra, sua feição continua limitada ao desenho de corpo humano.

Depois, cooperando com essa visão humanizada da fé, temos a figura dos santos. Trata-se de pessoas que, por uma reconhecida vida de piedade cristã, seriam capazes de interceder por nós na presença de Deus. E, como saem de nosso meio, levam consigo nosso formato. Levam nosso modo de pensar. E assim vamos enxergando o mundo espiritual de Deus cada vez mais através das nossas lentes embaçadas.

A humanização exagerada do sagrado traz prejuízos a uma correta interpretação da vida, da fé e da essência verdadeira de Deus. Assim, observamos ministros religiosos fazendo orações em termos corriqueiros, ensinando que Deus se compraz com sacrifícios, penitências e rituais que nós mesmos criamos, segundo nossa visão antropológica da Divindade e de todo o seu séquito celestial.

Essa diminuição de Deus torna-se patente quando confrontamos essa visão com o Universo. A religião cristã não consegue fazer uma boa interação entre a pessoa de seu Deus e os mundos criados por ele. A noção de um Deus humano não combina com as noções de grandezas do Cosmos. Embora as igrejas afirmem o ato criativo divino para tudo que há, esse formato reduzido tem o poder de isolar a Criação de seu Criador.

Antropomorficando a Deus, a religião cristã não estabelece uma ponte direta com o Universo. Hoje, sabemos que o Cosmos contém bilhões de galáxias, as quais, por sua vez, são igualmente bilionárias de estrelas, planetas, satélites etc. Em exemplo mais cognitivo, temos a Terra, com seus 510 milhões de quilômetros quadrados. É um planeta que gira em torno do Sol, uma estrela 1.300 maior. Logo, uma pessoa que tem o poder de criar toda essa grandeza é infinitamente superior à sua criação. Como é Deus? Quem é Jesus Cristo? Em que estágio vivem os santos no Paraíso celestial? Se o Universo, constituído de matéria e energia, é algo tão fabuloso, como é o Céu, onde vive a Divindade? Quais os seus limites? A religião não pode responder, pois ainda nem conseguiu agregar a criação do Universo ao Deus que o criou, vendo o ato criativo como algo à parte de suas práticas religiosas.

Escrevendo aos cristãos de Roma, Paulo considerou inescusável todo homem que não houvera aceitado o testemunho criativo emanado da natureza. Dois mil anos depois, esse padrão foi alterado. Igrejas reduziram Deus à meia-dúzia de bênçãos minguadas.

Rui Raiol é escritor (www.ruiraiol.com.br)

Publicado no jornal O Liberal em 20 de setembro de 2011