AMADO JESUS

Santa Ceia

Em minhas mãos, um pedaço do corpo de meu Senhor. Tecido frágil, rasgado por mãos pecadoras, como na Jerusalém sangrenta. Estou sentado em um templo, pensativo. Aqui, não há sentido em catedrais nem vestes sacerdotais reluzentes. A cor é vermelho, escarlate-sangue.

Em minhas mãos, também pecadoras, um pedaço de pão, símbolo perfeito da vida. Olho para o alimento universal, então compreendo a comparação de meu Mestre: Ele é o pão que desceu dos céus, capaz de alimentar o mundo inteiro. E sei que por isso estou aqui.

Num gesto que sempre me emociona, chega a hora de comer o pedaço de pão repartido. Ao meu lado, centenas dividem comigo a cena. Hora de dor, e igualmente de cântico. Sei que os anjos sorriem e choram.

Agora sinto o sabor inigualável do trigo. A descrição é deveras perfeita, pois foi morrendo a Semente que este fruto gerou para Deus.

Ainda penso na cruz, no corpo mutilado que me fortalece, quando um cálice paira diante de meus olhos mortais. Fito, e vejo seu sangue nas horas de aflição agonizante.
É a própria vida que chega a mim. Separada da carne, para que eu jamais esqueça o Calvário de dor.

Sim, uma porção do sangue de meu Senhor está agora em minhas mãos. E isso tem significante valor. Não sou digno nem de tocá-lo. É inocente. Puro. Mas só existe por mim e pelos que, de igual modo, acreditam em seu poder.

Na boca, o fruto da vide me diz que agora sou um só com o meu Mestre. Seu sangue está em mim. Eu o toquei. Eu o bebi. Tenho parte em seu Reino de glória. Sua morte matou-me também para o mundo. Mas sua vida me fez nova criação para Deus.

Testemunha agora sou do Calvário. Participante ativo. Mas pertenço ao grupo daqueles que cabisbaixos ainda choram. Sim, reconheci no Galileu meu Salvador celeste. Entreguei-lhe meu coração impenitente. Somos apenas um pelo seu corpo. Um só, pelo seu sangue.

Rui Raiol