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O intrincado sistema humano

A espécie humana é de longe a figura mais complexa dentre todos os seres. Quando Darwin debruçou-se sobre um catálogo de animais exóticos na Galápagos, estudou o homem por tabela, mas não com o mesmo aprofundamento empregado para compreender o processo evolutivo como um todo. Curiosamente, até hoje a ciência corre em busca de um chamado “elo perdido” na cadeia humana.

Mas, o propósito deste texto não é pensar apenas no aspecto morfológico e fisiológico da espécie humana. A medicina, com apoio na antropologia e ciências afins, pesquisa o homem, sua aparição e história ao longo dos milênios na Terra. E a cada dia surpreende-se com esta saga sobre os 510 milhões de quilômetros quadrados deste mundo. No futuro, a ciência fará isto também acerca da incursão do ser humano em outros rincões extraterrestres, começando pelos rastros deixados na Lua, Marte e confins do Universo por meio de sondas e naves já enviadas para o além.

O que me deixa mais fascinado no homem está além de tudo que falei acima. Para mim, o sistema humano é o mais intrincado e complexo, e estou falando de sistema mental, em sua esfera emocional e intelectual, falo de consciente, subconsciente e inconsciente. Para mim, eis o mais intrincado de todos os sistemas, superando a ignorância científica sobre as atuais teorias das matéria escura e energia escura, que juntas somam mais de 90% de tudo que se sabe e – paradoxalmente – do que não se sabe sobre o Cosmos. Isto é tão verdade que o sistema humano, mesmo sem saber do que se tratam tais “substâncias”, consegue identificá-las e medi-las.

O homem detém o mais intrincado sistema. Complexo. Inexplorável. Capaz de pensar sobre tudo e sobre todos, porém, às vezes sobremaneira obscuro e confuso de se lidar. A psicologia tenta mapear comportamentos, constrói teorias muito interessantes, mas, precisamos reconhecer, incompletas para uma perfeita percepção. Como disse alguém, cada um de nós somos um universo à parte, onde leis comuns e gerais nos governam, mas onde também cada pessoa teceu e tece diariamente uma rede personalíssima de pensamentos, vontades e sentimentos.

Vejo o relacionamento humano, em todos os níveis, como a arte mais perfeita do mundo. Quando estou no meio de uma plateia, vejo nisto um grande milagre dessa interação. Eu penso como é grandioso constatar que cem pessoas, por exemplo, assumam uma postura pacífica diante de um orador ou de um grupo teatral. Essa pacificidade, essa disposição em ceder ao outro para ouvi-lo me deixa fascinado.

É claro que essa pacificidade é um tanto aparente. O homem jamais desliga o seu sistema. Desde que é gerado, o sistema segue ativo até a morte, com algumas células lábeis que insistem em viver mesmo depois do óbito declarado, a exemplo de células de pelos e unhas, que ainda crescem teimosamente no caixão.

Cada pessoa, no exemplo da plateia, mantém seu senso crítico e às vezes até certo grau de animosidade. Mas, assim, como por uma convenção, pessoas cedem aparentemente para ouvir a outrem.

O que reputamos mais importante em termos de relacionamento não pode ser visualizado, pertence ao campo da invisibilidade, assim como o oxigênio e a molécula de água. O amor não pode ser visto. Discute-se se seria um sentimento. Como é difícil medirmos isto, preferimos dizer que o amor é mais pragmático. Mas, seria verdade mesmo? E o amor platônico, como existiria? Afinal, onde está o ódio, a vergonha, a angústia? Eu fiquei muito chocado quando li há alguns anos que a própria dor não é física, mas apenas uma resposta do cérebro a certo incômodo, é subjetiva.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 6/4/2021

(e-mail: ruiraiol@gmail.com)