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Paulo, o pai da globalização

Este artigo, como diz a própria coluna, é uma opinião. Não me debruço sobre tratados geopolíticos para afirmar o que direi. Meu ponto de partida é a observação demorada da incrível jornada do apóstolo Paulo ao redor do mundo conhecido, o que fez ao tempo em que ampliava e consolidava a jornada interior enquanto homem de vários mundos, profundo conhecedor e praticante também de duas religiões, dentre as três com mais alcance no mundo atual. Escrevo de mãos livres.

Paulo era judeu. Nascido em Tarso, teve direito à cidadania romana pela sua origem. De pronto, o mundo de Paulo era um mundo complexo. Ele tinha livre trânsito no vasto império dos césares. Tinha um salvo-conduto natural, o que hoje pode ser comparado ao mais importante passaporte internacional, haja vista o domínio de tantos povos dentro do império.

Mas, não era só isso. Paulo nasceu em plena importância da cultura helênica, de que herdará sua habilidade com a língua grega e com os costumes da península de Alexandre Magno. Ele herdou a sabedoria grega dos epicuros e dos estóicos, falava fluentemente o grego koiné e possivelmente também o grego clássico. Ele somava em seu currículo o legado jurídico de Roma e o conhecimento científico e filosófico da Grécia. Ele representou como ninguém a vitória latina sobre os helenos, pois sabemos que Roma venceu com as armas, mas a Grécia venceu com a filosofia e com a ciência, com a cultura de modo geral.

Esse judeu chamado Paulo não foi apenas um homem cosmopolita. Ele aprofundou-se no conhecimento das leis e da religião judaica da sua época. Instruído aos pés de Gamaliel, filho de Hilel, reputado homem mais sábio entre os sábios da sua época, ele foi um dos principais intérpretes da lei judaica. Fariseu, pertencia ao segmento respeitadíssimo de sua religião. Mestre, Paulo não era apenas um sábio teórico, mas um fervoroso praticante de sua crença. Sua aparição junto ao martírio de Estêvão, provavelmente menor de idade, remete à importância de sua formação. Estava ali, como um acadêmico presenciando a execução de uma pena.

Como dissemos, Paulo falava latim e grego, falava hebraico e aramaico, esta a língua contemporânea de Cristo e que, ao contrário do que alguns pensam, não era um dialeto hebreu, mas uma língua própria que, segundo especialistas, por sua riqueza, chegava a superar o próprio hebraico. E foi em hebraico que  ele confessa ter ouvido a voz de Jesus lhe falar na estrada de Damasco. Foi este homem que, ao meu ver, fundou a globalização.

Paulo empreendeu três viagens missionárias ao redor do centro do mundo da época. Ele visitou importantes cidades e colônias, desde Corinto, Éfeso, Espanha, cidades da Ásia Menor, ilhas, como Creta e Malta, até terminar sua jornada na cosmopolita Roma, onde produziu seus textos mais tocantes.

Mas, não foi só isso, como se fosse pouco. Paulo certamente viajou muitas vezes antes de suas referências neotestamentarias. Isto era natural e fica evidente pela familiaridade com que se move nas jornadas de evangelização. Ele sabia o que fazia. Na derradeira viagem, Paulo dá uma verdadeira aula de náutica nos capítulos 27 e 28 de Atos. Ele conhecia os mares, a natureza, conhecia correntes marítimas e eólicas. E foi assim que ele legou ao cristianismo nascente o seu caráter universal e cosmopolita que conhecemos.

Paulo foi um homem de viagens e de avançada comunicação. Escrevia antes de ir. Escrevia durante o deslocamento. Escrevia ao desembarcar em trânsito. Escrevia quando regressava à terra de Israel. Para mim, Paulo é o fundador da globalização.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal

(Site: www.ruiraiol.com.br)