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O maravilhoso caminho da vida

Viver é a experiência máxima que podemos ter. Sem olvidar que para muitos a vida é um fardo pesado, havemos de considerar que esse fato é uma exceção que se apresenta como uma pedra no caminho. A estrada da vida por si mesma é boa.

Neste Universo, inconcebível à mente humana, viver representa a única experiência conhecida entre bilhões e bilhões de galáxias. Única. Sempre imagino quanto a humanidade mudaria se cada um de nós pudesse espiar a Terra do espaço. Penso que esqueceríamos de tantos senões e nos voltaríamos mais para o próprio caminho. Seríamos mais contemplativos, pacientes, reflexivos. A experiência de viajantes que retornaram à Terra prova a mudança de perspectiva.

O maravilhoso caminho da vida não é infinito. Quando somei o número de dias de um centenário, fiquei chocado. Grosso modo, um século de vida contém 36.500 dias. Meu Deus, eu disse, não chega nem a 40 mil dias! Mas isto é fruto do nosso calendário. Relativamente falando, o tempo, tal como contabilizamos hoje, é uma invenção humana, uma convenção. Um dia poderia ter apenas doze horas, então um centenário viveria 73.000 dias, mas este é um assunto para outro artigo.

Pela finitude do caminho, havemos de aproveitá-lo bem. Geralmente nos reprimimos muito. Temos muitos códigos a obedecer. Leis civis, morais, éticas, sociais. Excluída a intangível lei divina, vivemos um cerco. Nada obstante a Constituição proclame que não somos obrigados a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, a exceção que apresenta (“senão em virtude lei”) é uma garantia é uma algema.

Nesse maravilhoso caminho, a religião, que se apresenta como conexão para um mundo infinitamente mais admirável, um paraíso, torna-se também um jugo pesado. Na sua interminável ânsia de legislar e exercer controle social, a religião, sem o foco da liberdade individual e coletiva, representa uma das piores formas de opressão, senão a pior.

Nesse emaranhado leito de tantos códigos, cria-se a nossa consciência. É aqui que a coisa pode se complicar, pois a consciência também tem foros de intangibilidade, certeza, verdade. Ocorre que grande parte da nossa consciência provém de fora ou, pelo menos, nasce do choque entre as ordenanças do mundo e a nossa personalidade. É assim que a consciência sem este senso crítico representa, para mim, uma das piores limitações de vivermos bem esta maravilhosa experiência.

             Mas a vida é indiferente à lei humana, observa apenas seus próprios parâmetros. O saber pode ajudar, mas o corpo não reconhece títulos. Olhado o corpo de dentro, somos praticamente irreconhecíveis. Médicos adoecem e morrem como qualquer pessoa. O importante é aprender o significado desta fugaz jornada. O que importa é ficar diariamente extasiado pela bela oportunidade que temos.

Não desperdice tempo. Cada dia é único. Cada dia tem sua própria assinatura nesse caminho. Viva. Respire. Às vezes, conversando com Deus sobre as aves, eu brinco dizendo que, apesar de eu crer na existência do Céu, considero já estar suficientemente satisfeito com a minha porção na Terra.

Eu falo para Deus que sou muito exigente, ao contrário, pássaros se contentam com tão pouco aos nossos olhos. Eles cantam, sem medir o tempo maluco que estabelecemos. Assim, eu falo para Deus que estar aqui é tão maravilhoso que, se tudo terminasse com a morte, eu já estou satisfeito. A vida eterna é outra coisa.

Viva. Aproveite! Eis o recado dos nossos dias.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 16/03/2021

(Site: www.ruiraiol.com.br)