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A riqueza da literatura hebraica

A literatura hebraica está entre as mais importantes da Antiguidade. Aparentemente apenas uma produção religiosa, na verdade, a história do povo judeu fomentou uma literatura riquíssima, com elementos originais.

Para uma melhor compreensão dessa produção, vamos utilizar neste artigo apenas a Escritura, muito embora a tradição judaica tenha produzido uma vasta obra, grande parte desconhecida dos cristãos, a exemplo do Tamulde, importante coleção de conteúdo espiritual e ético.

Para compreensão da literatura hebraica contida na Escritura, temos de considerar que a organização da Bíblia em capítulos e versículos é coisa recente, um mecanismo apenas facilitar o manuseio. Todavia, isso traz às vezes prejuízo ao aspecto literário do livro, pois as divisões são artificiais, exceto no livro de Salmos, onde cada texto é uma unidade de per si. Mesmo assim notas editoriais podem atrapalhar o seu intérprete.

A literatura hebraica é rica em prosa e poesia. Suas narrativas são fabulosas e profundas, riquíssimas, o melhor do conhecimento da época em que foi produzida. Assim, por exemplo, o livro de Jó, considerada a sua mais antiga produção. Estando cheio de figuras, possui uma narrativa única. Nele, Deus e o homem conversam, discursam, refletem. Seus derradeiros capítulos são magníficas aulas de história, astronomia, filosofia e de conhecimento do planeta Terra. As constelações de Órion (uma nebulosa, onde estrelas nascem diante dos nossos olhos) e Ursa maior estão ali presentes.

Os 39 livros que formam o Antigo Testamento são ricos em gêneros literários, indo rapidamente da prosa à poesia, ao drama, à tragédia. Repletos de figuras de linguagem, neles o escritor não passa sua mensagem apenas, mas rebusca, enfatiza.

A Bíblia é um álbum de lágrimas e sorrisos. Mesmo seus textos mais graves não desprezam a forma, a exemplo dos livros proféticos. Isaías, Daniel, Ezequiel, Jeremias, todos trabalham com metáforas, antíteses, parábolas. É assim que Ezequiel descreve um vale de ossos secos no capitulo 37 para falar do estado espiritual de Israel. É assim que o profeta Natã conta uma história tocante para conseguir a confissão de pecado do rei Davi.

Para produzir o texto, seu autor pode mesmo encenar e até viver uma realidade, a exemplo do profeta Oseias cujo livro nasce da ordem divina para que o escritor casasse com Gômer, uma mulher adúltera. É assim que Jeremias vai à casa de um oleiro para, apreciando sua arte, dizer que Deus é quem molda Israel, que pode amassar o barro de um vaso imperfeito para produzir uma peça totalmente nova.

O Novo Testamento, parte acrescida pelo cristianismo, não é diferente. Ali temos o melhor da literatura. Sem nenhum débito à riqueza hebraica antiga, nasce aqui um texto cosmopolita, fruto das viagens de Paulo, juntando ao texto sagrado com perfeição os estilos grego e latino. Essa literatura é uma aula de geopolítica. Contém importantes elementos da filosofia e suas escolas expoentes, como epicurismo e estoicismo. Paulo é mestre nisso, embrião da Escolástica, que florescerá com Agostinho nos primeiros séculos.

Mateus, dirigido aos judeus, é um livro riquíssimo da cultura judaica. João chama a juntar-se ao texto a cultura helênica. No capitulo primeiro, o “logos” grego é chamado para interpretar a profecia messiânica aos judeus espalhados ao longo do Mediterrâneo dominado por Alexandre. Por fim, sem retirar-lhe a primazia neste texto, é Jesus o Mestre da literatura. Com parábolas, contos e tantos recursos, até na cruz Ele foi poético.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 2/3/2021

(Site: www.ruiraiol.com.br)