ÚLTIMAS NOTÍCIAS

O Brasil entre a vacina e o voto

O descaso com a vacina contra o novo coronavírus expõe a diferença de tratamento que o governo brasileiro emprega à questão eleitoral. O Brasil, conhecido mundialmente pela velocidade de suas eleições eletrônicas, envergonha o planeta pela falta de interesse em imunizar a sua população. Enquanto o mundo avança em sua luta contra o tempo, o Brasil é um país de discussões imbecis, sem pulso para exigir o que pode significar a diferença entre a vida e a morte, a vacina.

Com mais de 230 mil brasileiros mortos pela pandemia em território nacional, salta aos olhos que o Estado não trabalha prioritariamente em prol dos seus cidadãos, mas emprega vultosos recursos para segurança e conforto de seus agentes políticos. E, se um presidente insurge-se, sem provas, contra a segurança do voto eletrônico, não faz igualmente em nome do interesse público, mas em salvaguarda de suas próprias inseguranças. A democracia mostra-se, assim, um espaço onde prevalece o interesse particular.

Depois de a Nação ter gasto fortunas para modernizar o processo eleitoral, eis que vemos, embora remota, a possibilidade de o governo federal condenar o melhor da tecnologia, trocando computadores por velhas urnas de lona, um absurdo que só se justifica pelo domínio do capricho pessoal em detrimento do bem público.

Enquanto isso, seguimos no vice-campeonato mundial de mortes pela pandemia. Só perdemos para os Estados Unidos, que tiveram o azar de ter um defensor da ignorância científica, de ter um presidente sem formação médica intrometendo-se onde não foi chamado. Um absurdo copiado ipsis literis em território verde-amarelo. Dobradinha defasta.

Depois de quase um ano de pandemia, o Brasil é um país lastimável, sem vacina para todos, que precisará de quatro anos para imunizar todo o seu povo, segundo especialistas. Porém, a discussão do voto segue firme. Reeleição é o verbete preferido de Bolsonaro, desde que sentiu o gosto do poder no primeiro dia.

Na verdade, toda a desgraça desta falta de vacina deve-se à questão do voto. Se não houvesse uma eleição para pouco menos de dois anos, nada disto aconteceria. Se o presidente não estivesse com a cabeça nas urnas, talvez pensasse no seu importante papel de líder da nação. Mas, o voto embaralha tudo, os interesses eleitorais são prevalecentes, a vacina está em segundo plano. O que Bolsonaro não parece enxergar é que se ele lutasse pela vida de todos os brasileiros, deveriam estes ser-lhe gratos no próximo pleito, quem sabe. Pelo menos, eu penso que a mortandade em um país não ajuda em qualquer processo de reeleição, mas dá munição aos adversários.

Bem, minha oração é que o Brasil tenha livramento de mais mortes. 230 mil pessoas é muita gente, milhões estão de luto, filhos  órfãos, famílias sem arrimo, uma tragédia. Francamente, não tenho coração nem estômago para pensar em voto agora. Asco! Acho que falar em voto agora é praticar tortura psicológica contra o povo.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 9/2/2021

(Site: www.ruiraiol.com.br)