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O rol da desgraça na profecia de Paulo

A presente pandemia chama à atenção para uma profecia que o apóstolo Paulo proferiu quando escrevia sua segunda carta ao discípulo Timóteo. Sem nenhuma figura que levasse a uma interpretação simbólica, o autor bíblico anunciou que no tempo do fim haveria “tempos trabalhosos” ou “tempos difíceis”, segundo outra tradução.

Em seguida, o Apóstolo dos Gentios aponta o fator humano como a causa dessa tribulação e elenca dezenove tipos de homens que dominarão o panorama nos derradeiros dias. Segundo a profecia paulina, os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, amantes dos prazeres em detrimento de Deus, fingidos.

Ao lermos esse rol da desgraça, parece que estamos lendo o jornal do dia, parece que estamos vendo o noticiário brasileiro, onde os “tempos trabalhosos” mostram-se sobremaneira evidentes. Veja, essa perplexidade da profecia paulina não aponta para nenhuma causa natural, mas a desgraça sobrevém ao mundo pelo braço do homem, pela sua ação e também por sua omissão.

O egoísmo está na base dessa pirâmide implacável. O homem do século XXI está pensando em si mesmo mais do que nunca. Até mesmo o cristianismo em boa parte deixou de ser uma pregação de culto ao Criador para entronizar o homem. De repente, Deus assumiu o papel de servo, tendo o crente todo o direito de prosperar e ser feliz. Vivemos um cristianismo antropocêntrico com certeza. Grandes igrejas implicam pastores ricos, poderosos por meio da renda do altar. O Vaticano segue como um riquíssimo estado papal. A avareza é um pecado ensinado pela própria igreja instituição, com palavras ou apenas com o exemplo de grande acumuladora de tesouros terrenos que é.

Jactanciosos e arrogantes o Brasil tem até para exportar. Transbordam. Desafeiçoados, eis o domínio da política brasileira, que brinca de poder enquanto centenas de mortos são jogados em covas abertas por tratores. Eis também o domínio dos famintos líderes religiosos que, pela troca de um afago do poder político, calam-se acerca da mortandade que dizima a nossa nação.  Falta afeto. Respeito. Solidariedade. Falta o “chorai com os que choram”. Louvável a atitude da Assembleia de Deus em Belém ao arrecadar oxigênio para o Amazonas.

A pandemia estampou a profecia paulina. Em tempos difíceis, o homem mau piora. A política mundial corre perigo. Democracias ameaçadas. Tiranos levantam-se. Como abutres, eles vêm para massacrar quem chora seus mortos. O Brasil está se transformando em uma grande torre de Babel. O oportunismo político está prevalecendo. A religião cambaleia. A doença é apenas um item nesse cenário. Vivemos, sem dúvida, esses tempos trabalhosos.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 2/2/2021

(Site: www.ruiraiol.com.br)