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Religião e política, uma mistura mortal


Membro da Assembleia de Deus há 41 anos e pastor há cerca de quinze, confesso que estou chocado com a triste situação da igreja evangélica brasileira. Depois de um tempo inicial em que política partidária era assunto proibido na igreja, sendo o púlpito reputado um lugar sagrado para pregações da Bíblia e pastores homens de vida consagrada a Deus, fico estarrecido com a miscigenação que se instalou no meio do rebanho.

Ainda na década de 80, era tímida essa aproximação. Igrejas apoiavam veladamente alguns políticos evangélicos. Lembro-me, por exemplo, de algumas assunções de Antônio Teixeira, deputado estadual por muitos anos no Pará. A igreja lhe franqueava a palavra por uma questão de deferência, pois não havia um caráter oficial da visita. Políticos estavam no púlpito durante inaugurações importantes, como ocorreu com o saudoso prefeito Jorge Coutinho durante a inauguração do majestoso templo da Assembleia de Deus na 14 de Março, em Belém.

Muito embora o pioneirismo do casamento entre religião e política na igreja evangélica brasileira seja atribuído ao missionário Manoel de Mello, fundador da igreja O Brasil para Cristo, ainda no começo da segunda década do século passado, foi somente recente que as grandes denominações religiosas lançaram-se nesta seara secular, espiritualizando o voto como a mais nova “missão” da igreja.

Desde então, houve um crescimento expressivo de candidatos evangélicos apoiados ostensivamente pela liderança. O resultado foi a criação da chamada bancada evangélica no Congresso cujo fundador, foi o ex-deputado Hidekazu Takayama, célebre evangelista em décadas passadas – a quem muitas vezes ouvi pregar mensagens bíblicas eloquentes – Frente que tinha como recém-presidente o deputado Pastor Everaldo, que se encontra preso acusado de corrupção.

A influência partidária cresceu tanto na igreja que todas as grandes denominações parecem ter celebrado um pacto com o então candidato Jair Bolsonaro. Pastores enriquecidos em sua maioria pela exploração da fé, viram em Bolsonaro uma possibilidade de ouro de crescerem politicamente e, assim, tornarem-se ainda mais econômico e financeiramente poderosos.

O resultado está aí: uma desgraça se instalou no segmento evangélico. Igrejas abandonaram a ênfase pela pregação do Evangelho. Púlpitos converteram-se em palanques. Pastores, cabos eleitorais. A falta de respeito com a membresia é extrema. Ninguém tem o direito de discordar. O voto de cabresto tornou-se a prática massiva de muitas igrejas, cujos líderes perderam o respeito pelo altar e pela liberdade individual dos frequentadores de suas igrejas-empresa.

Religião e política constituem uma mistura mortal, mortal para ambos os lados. A Igreja não deve praticar política partidária. O partidarismo divide pessoas. O Evangelho é um chamamento à unidade na diversidade. Igreja deve se ater ao seu métier.

Hoje, a política e a igreja evangélica brasileiras estão gravemente tocadas. Uma onda de fanatismo, idolatria política e fundamentalismo está adoecendo mentes fracas que frequentam templos. A política está confusa, tendo como protagonistas tais “crentes”, que em plena ignorância dos ensinos de Cristo, parecem dispostos a morrer e a matar por Bolsonaro.

A culpa? A culpa está com a liderança corrompidas das igrejas, pois ovelha segue ao pastor, ao líder. Pastores gananciosos precisam se arrepender ou pelo menos ler a nossa legislação, que proíbe expressamente o uso do poder econômico para fins políticos e qualquer tipo de utilização da instituição religiosa para esses fins.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 19/1/2021

(Site: www.ruiraiol.com.br)