ÚLTIMAS NOTÍCIAS

O mundo em revista

Não é apenas uma doença. A pandemia pelo novo coronavírus veio com o poder de passar o mundo em revista. Nada escapa. Pessoas e instituições passam a ser analisadas a partir do modo como tratam a questão. O desenho do mundo sai do microscópio e recebe formas, denominações e consequências imprevisíveis por qualquer presságio.

O mundo e seus habitantes sofrem diretamente o efeito da chegada da Covid-19. Muito embora mortal, paradoxalmente, é uma forma de vida que vem para nos provar. Vem para provar o modo como vivemos, o que pensamos, o que buscamos. Nada escapa mesmo.

A economia sofre. Nações poderosas regridem. Emergentes submergem. Índices de bolsas gravitam em eixos pandêmicos. Os Estados Unidos trocaram a supremacia econômica pela liderança de mortalidade e contaminação. Em apenas um único dia, 3.700 americanos tombam pelo inimigo invisível.

A humanidade clama por vacina. Quase um ano depois da notificação de Wuhan, meia dúzia delas foram produzidas, mas isso não basta. Mentes insanas arriscam pela morte. Negam a carnificina. Negociam política de morte. Cerram cofres. Infelizmente, existe coisa pior que a pandemia.

O mundo em revista. O calendário, célebre invenção de Júlio César, parece perder a função, o sentido. De repente, voltamos em parte a ser prisioneiros do tempo. Já não são horas nem dias ou meses que nos guiam, mas o avanço do vírus, a taxa de mortalidade, a expectativa da vacina. Claramente, são estes os ponteiros desse arcaico relógio. Sentimo-nos tão vulneráveis quanto o homem de séculos passados.

O governo do mundo ganha relevância. Descobrimos que não podemos quase nada, mesmo nas chamadas democracias. A vida de nações inteiras parece depender de um único homem. Se ele é sensível à dor pública, aplausos! Se é do tipo negacionista, egocêntrico e sarcástico, pobre povo. Escravos modernos da democracia. É assim que descobrimos que o Brasil não comprou agulhas nem seringas, muito embora caminhemos para duzentos mil mortos. Que triste revista deste vírus!

Nossa fé está em xeque. Afinal, em quê acreditamos? Para que serve a fé? Ela nos prepara para vida ou para a morte? Afinal de contas, existe outro mundo racional? Quem busca, jura que existe. Eu mesmo defendo isto, sem, todavia, deixar de considerar que também estou sendo visitado pela revisão. Provado. Forjado no fogo mais ardente da nossa geração.

Falando sobre isto, estou certo de que existe sim algo além da zona deste coronavírus. Enquanto durmo algumas noites, tenho sido tratado com técnicas além da Terra. Acordando, eis que estou são. Foram todos os sintomas. Sem remédio. Sem vacina. Sem deboche político.

Mas, acordando, já encontro o vírus desperto. Ele não dormiu. Matou milhares enquanto eu sonhava. O drama segue. A revista está no auge. O mundo inteiro sob essa revista.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 5/1/2021

(Site: www.ruiraiol.com.br)