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Charlie Hebdo, Jesus, etnocentrismo e direito à blasfêmia

Nada justifica o terror. Nada justifica a carnificina. Nada justifica os atentados que a França tem vivido desde que o semanário Charlie Hebdo publicou charges do profeta Maomé em janeiro de 2015. Depois da tragédia que ceifou 12 vidas naquele ano, a revista resolveu questionar a desarrazoabilidade agora no dia 2 de setembro. Com a manchete “Tout ça pour ça”, o Hebdo reacendeu o ódio mortal do Estado Islâmico, culminando na decapitação pública de um professor nos arredores de Paris.

Quando li a nova publicação, eu sabia que a revista estava mexendo com fogo. Afinal, por que provocar algo que já deixou tantas mortes? Por que relativizar aquela motivação criminosa? Imediatamente, eu sabia que estávamos perante uma questão mais profunda, etnocêntrica, que expõe mundos diferentes, quais sejam: a liberdade de pensamento da laica sociedade francesa e o fundamentalismo religioso do Islamismo.

O etnocentrismo resulta de choque cultural. É um choque de valores diametralmente opostos, algo que não contém elementos comparativos, mas se trata de valores absolutos que não podem ser medidos por uma única escala. É assim que, enquanto os franceses se consideram sobremaneira evoluídos, sem limites para opinar e para expor, e protegidos por leis que lhes dão o direito de blasfemar, outros povos têm igualmente valores sagrados, intocáveis.

Imaginemos, por exemplo, o que católicos paraenses achariam de ver a imagem do Círio e de Maria expostos em charges satíricas pelo Hebdo. Apesar de pertencermos ao mesmo hemisfério, isso certamente seria repudiado pela sociedade paraense. Até o Estado se manifestaria, pois, não obstante nossa laicidade constitucional, o Brasil venera imagens em repartições públicas, sendo Maria objeto de leis que lhe garante honras de chefe de estado.

Para entendermos o mundo islâmico, avesso a ícones e a qualquer tipo de representação física de Maomé, fica mais fácil recorrermos ao judeu Jesus. A nação de Israel, envolta na adoração de imagens no começo, como bem nos lembra a cena da confecção de um bezerro de ouro durante a outorga do Dez Mandamentos, curou-se definitivamente da idolatria no cativeiro na Babilônia.

Assim, os judeus não permitiriam doravante nenhuma representação, fosse humana ou não. Isso foi tão sério que causou prejuízo à história do país, pois em Israel não temos murais, efígies, estátuas… nada. Até as ofertas do templo precisavam ser cambiadas. A efígie de César não entrava, era melhor devolver para ele. Enquanto judeu, Jesus sempre estranhou imagens, estando essa proibição no topo do Decálogo.

Embora nada justifica o massacre, é necessário que a sociedade francesa ponha o etnocentrismo em sua balança racional e considere que igualdade e liberdade pressupõem fraternidade.

Rui Raiol é escritor.

Publicado no jornal O Liberal em 20/10/2020

(Site: www.ruiraiol.com.br)