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A mitificação do poder

A elevação do ser humano ao poder temporal pode produzir delírios.  Isto pode acontecer com a fama, poder material, poder político, espiritual etc. Governantes e governados são capazes de abstrair da realidade e viver um mundo mítico que se aproxima da conceituação de divindade. Este é um fenômeno que vem desde tempos imemoriais. Olhando de per si, nada de mais nos sujeitos envolvidos. Todos somos seres vivos com as mesmas necessidades da existência. Porém, a condição de investidura em que alguns se encontram os torna “super-poderosos”, faz com que considerem acima da norma, da moral, acima de tudo e de todos. Porém, como dissemos, isto não sobrevive isoladamente em algum sujeito, exceto patologias. Sobrevive também, e, podemos dizer, graças a um grupo social crédulo ao extremo na figura aclamada. Embora estranhos à razão, a base desse apoio encontra-se na ideia de infalibilidade do homem, do ídolo. Afora o prejuízo do grupo social quanto à capacidade de exercer o seu próprio senso crítico e as interações negativas que esse grupo passe a gerar com o resto da sociedade, o grande problema está nos objetivos daquele que está investido de tamanho poder e autoridade. Ele pode utilizar essa capacidade para o bem ou para o mal. Algumas figuras religiosas e políticas utilizaram-se desse carisma extremado para o bem, a exemplo do Reverendo Martin Luther King e da Madre Teresa de Calcutá. Outros, e a grande maioria, diríamos, utiliza esse poder para perseguir, destruir e enganar. Utiliza-o para proveitos pessoais e familiares. Sempre me perguntava – vamos falar assim, por enquanto – quando via bandas e cantores arrastando multidões, vendendo milhões de discos todo ano, o que estavam fazendo mesmo com tamanho poder, pois alguns hit’s não passam de refrões tolos onde faltam música e poesia. E a resposta era uma só: multidões os seguem, mas tudo não passa do objetivo de enriquecimento de tais ídolos. Chego a esta uma conclusão quando noto que, embora algum homem ou mulher tenha o poder de reunir milhões, não utiliza essa oportunidade para a prática do bem da sociedade nem do próprio grupo que os aplaude. Não percebemos solidariedade, amor, respeito, compromisso. Enxergamos semideuses loucos querendo alçar voos mais altos enquanto seus seguidores debatem-se no pó.

Rui Raiol é escritor 

Publicado no jornal O Liberal em 25/08/2020

Site:  www.ruiraiol.com.br