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A briga entre Malafaia e Olavo

Francamente, ainda não entendi. Afinal de contas, qual é a verdadeira inserção de Malafaia e Olavo no governo de Jair Bolsonaro? Silas Malafaia, que cresceu utilizando seu espaço de televisão em polêmicas, aparece no governo de Jair Bolsonaro desde a campanha como inimigo mortal daquele que  é reconhecido pela mídia como sendo o “guru “ do presidente. Olavo de Carvalho, com residência fixa nos Estados Unidos, ganhou notoriedade ampla  a partir do surgimento de Bolsonaro na corrida presidencial. Silas Malafaia, a quem prefiro não chamar de pastor, trabalhando com política partidária dentro da Assembleia de Deus, homem que havia tentado, em vão, uma aproximação com Dilma Rousseff, tendo conseguido, por fim, essa aparição no curto reinado de Michel Temer, despontou com tudo na grande mídia como um tipo de profeta e sacerdote de Jair Bolsonaro. O que eu não entendo mesmo é por que há tanta beligerância entre ambos. Olavo de Carvalho é contra militares e tem grande influência no governo Bolsonaro. Seu poder é tão grande grande que nos últimos dias o filósofo disparou palavras duras contra o seu pupilo presidente, ameaçando, inclusive, de depô-lo da Presidência. Bolsonaro foi chamado de “covarde”, subserviente aos militares e ameaçado de processo por prevaricação por Olavo. Afinal, qual é o grau de cumplicidade entre um simples cidadão morador dos Estados Unidos e o Presidente do Brasil? O senador Randolfe Rodrigues entrou com requerimento na Procuradoria Geral da República para que essa relação seja investigada, uma vez que a incolumidade da Presidência é de interesse público. Entrementes, como era de esperar, Silas Malafaia veio a público desdenhar e ofender asperamente o pressuposto agressor de Bolsonaro. O presidente, cujo perfil dispensa palavras, mostrou-se sereno perante palavreado tão pesado e às ameaças estranhas de Olavo de Carvalho. Olavo bradou domingo; segunda, Bolsonaro aumentou o prestígio dos olavistas, nomeando um dos alunos de Carvalho para elevado cargo no governo, cargo esse que dá, inclusive, voz ao novo nomeado no Planalto. Malafaia parece espernear porque Bolsonaro tem reconhecidamente outro “guru” que não ele mesmo, religioso. É assim que, parecendo também desconhecer o grau de intimidade entre Bolsonaro e Olavo, que Malafaia brada no escuro, saindo em defesa do líder, defesa não requerida pelo presidente, muito menos defesa representativa do segmento evangélico, que cegamente Malafaia e a bancada evangélica acreditam que representam. Eu, por exemplo, que sou membro da Assembleia de Deus desde 14 de maio de 1978, posso dizer que Malafaia está há anos-luz de me representar enquanto cristão, a começar porque discordo veementemente da prática da política partidária nos arraiais evangélicos. Em resumo, até agora, o que eu sei é isto: Olavo de Carvalho parece-me ter munição suficiente para ir a uma guerra contra Bolsonaro, enquanto Malafaia aproveita uma questão entre amigos e tenta fazer uma defesa intrometida, defendendo quem lhe não pediu e sem conhecer, assim quanto eu, o que de fato existe nessa ponte aérea político-ideológica entre o Planalto e a casa de Olavo na América.

 Rui Raiol é escritor 

Publicado no jornal O Liberal em 10/06/2020  

Site: www.ruiraiol.com.br