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Pandemia e massacre político

O contexto político de alguns países e, especificamente do Brasil, revela com clareza que temos um problema maior do que o novo Coronavírus, a atuação dos agentes políticos durante este grave momento. Sim, é pior, porque o vírus, muito embora fatal às vezes, é um patógeno democrático, que não faz acepção de pessoas, classes sociais, religião etc. É um vírus sem ideologias, desprovido de sentimentos. Por outro lado, o agente humano político pode se revelar frio, jocoso, desumano até a última célula.Vivemos um massacre político no Brasil. Caminhando para três mil mortos, apenas pela contagem oficial, e alguns políticos parecem respirar ódio, porfia, individualismo e autoritarismo. Não vemos o estado brasileiro lamentar os nossos mortos. Não o vemos enviar uma palavra de solidariedade para tantas famílias brasileiras emocionalmente destroçadas pela morte. Isto é um massacre!Não estamos em momento para confrontar nossas instituições. Espera-se união neste momento. Espera-se solidariedade. Infelizmente, nosso país marcha para rumo desconhecido. A Venezuela para ser o nosso destino. O massacre político, o discurso triunfalista sobre inimizades políticas e outros descontentamentos do Planalto ecoam em uma hora quando o Brasil está chorando pela morte. Todos nós sabemos que os números dessa pandemia estão deveras subnotificados no Brasil. Basta olhar ao redor. Já encontramos a morte bem perto de casa. Cada um de nós já choramos a perda de algum amigo ou parente. Não há quase um quarteirão sem morte. Não há praticamente uma rua onde não haja brasileiros doentes, desamparados. Lemos a nota de pesar da polícia paraense, que viu uma das suas agentes morrer diante de um hospital, nos braços do esposo, depois de uma via-sacra pelas casas de saúde de Belém.É desumano. Afrontoso. Insano. Frio todo ato político, todo discurso do Planalto que omite a nossa dor. Sim, o Brasil marcha velozmente para uma catástrofe. Descobrimos da pior maneira possível o que deixou de ser feito com os recursos públicos durante muito tempo. Não temos leitos. Não temos nem respiradores suficientes que tentem evitar o desfecho final ou, pelo menos, garantam a dignidade de uma morte serena. Perdõem-se os senhores que liderando grupos abstêm-se nesta hora, calando, deixando de ser um canal de Deus e, alguns, até loucos por dinheiro que insistem em abrir suas agências bancárias com a logomarca da cruz. É um massacre ignorar milhares de mortos. É uma afronta discutir eleição para 2022. Precisamos de serenidade, amor, solidariedade. Esta não é a hora de fazer política, nem agressiva nem defensiva. Esta é a hora de cada político ser verdadeiramente um agente público, pois a vida tem valor, sim. Não queremos que os nossos anciãos morram pela Covid-19. Eles merecem respeito e dignidade, pois, além de seres humanos, sustentaram esta nação há poucas décadas. Não queremos nossas crianças faveladas morrerem. Não queremos que os ribeirinhos da Amazônia morram por essa desgraça sanitária, pois precisam testemunhar que já são sobreviventes ao descaso por outros motivos. 

Publicado no jornal O Liberal em 21/04/2020
 Rui Raiol é escritor   

       Site: www.ruiraiol.com.br