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COVID-19 e a promiscuidade da religião

“Ela tem que conseguir um jeito de dizer que prefere o amor no lugar da promiscuidade mas não pode deixar que a grande maioria da população corra riscos maiores de se contaminar, de contaminar seu semelhante e de morrer depressa (…)” (Pinto, Ziraldo Alves, “O Alpiste”, Melhoramentos, 2005.).Não encontro palavras melhores para descrever a  que assisti domingo em um culto ecumênico com a Presidência da República. A religião cristã, que tem por dever moral ser a guardiã da vida, da integridade física e moral do ser humano, cai em terrível contradição nestas horas tenebrosas em que o nosso país está prestes a entrar no momento mais crítico da pandemia pelo novo coronavírus. Ficamos perplexos em perceber quanto a religião pode ser um instrumento de desgraça e até de morte. Mais de 100.000 mortos e o mundo e caminhando a passos largos para 2 milhões de infectados, e encontramos um grupo de religiosos tais abutres sobre a carniça do poder. Espera-se que a religião cristã compareça neste cenário de morte para repartir a solidariedade, a assistência espiritual e física a tantas famílias brasileiras que hoje choram, mas, com pesar de alma, assistimos a uma cena ridícula de alguns homens venais presentes ali, dispostos a tudo pelo poder. Lamentavelmente, fica fácil perceber que esse casamento promíscuo entre a religião e a insistência do estado brasileiro de continuar zombando do sofrimento  alheio é um presságio claro que  esse tipo de relacionamento promíscuo será a base do futuro aparecimento do Anticristo, figura prevista na Bíblia. O que escrevi na ficção “O Rapto – Os últimos dias da Igreja na Terra”, há 16 anos, estou vendo desenhado agora, de verdade, perante os meus olhos.Deus sabe, e eu não tenho medo nem remorso de afirmar, que o evangelho, o amor, a solidariedade, o respeito, a verdade e demais valores éticos e morais não estavam presentes em alguns senhores naquele encontro midiático do último domingo. Pastores, já indevidamente enriquecidos com o Evangelho, parecia-me abutres se alimentando da desgraça que o povo brasileiro e o mundo estão vivendo. Em tempos de calamidade, guerras e epidemias,  sempre aparecem abutres travestidos do bem para tirar proveito da desgraça. Vamos ler de novo as palavras de Ziraldo, luvas perfeitas para esse tipo de religião: “Ela tem que conseguir um jeito de dizer que prefere o amor no lugar da promiscuidade mas não pode deixar que a grande maioria da população corra riscos maiores de se contaminar, de contaminar seu semelhante e de morrer depressa (…)”–
          Rui Raiol é escritor

Publicado no jornal O Liberal, em 14/04/2020

 Site:     www.ruiraiol.com.br