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Covid-19 e vida parentética

Ciência e religião são unânimes em considerar que a vida na Terra é apenas um parêntese aberto. No cristianismo, esse tempo foi aberto pela Ascensão, quando Cristo retornou ao Céu, conforme relatado no Atos dos Apóstolos. Esse parêntese aberto com a Ascensão há de fechar quando o mesmo Jesus retornar da Glória celestial. Coincide perfeitamente com a caminhada da Igreja neste mundo.Predito desde o Antigo Testamento, a Segunda Vinda de Cristo é amplamente tratada até o livro do Apocalipse. Retonando miraculosamente, o Messias arrebatará todos os cristãos, trasladando ao Céu fiéis vivos e mortos. A partir desse evento, seguem-se outros fatos escatológicos, culminando com o Juízo Final e a restauração da Terra, cujo método o apóstolo Pedro apresenta o fogo.Mas, é na ciência, haja vista sua ubiquidade, que a vida como um todo é compreendida pelo mundo como uma breve permissão cosmológica. A Terra, que originalmente era um inferno de metais ardentes, voltará a aquecer. E não estamos falando de efeito do aquecimento global, que também poderá pôr fim à vida terrena, mas da aproximação do Sol com o planeta, ou, em última instância, a morte dessa estrela, prevista para 7, 5 bilhões de anos.Nesta fatia de concessão, seja isto crido enquanto ciência ou metafísica, situa-se toda a história de vida sobre a Terra, especialmente a história humana. Dentro do calendário de tempo do Universo, ocupamos apenas alguns “segundos”. Trata-se de um delgado raio de fumaça perante a cortina do tempo que encobre todo o Universo, tempo, aliás, que foi criado pelo homem, mas isto é assunto para outro dia.Embora empacotemos todas as palavras de Cristo com o papel da religião, ele não falou apenas disto. Ele falou de História. Sua fala remonta à origem do mundo (“não ouvistes que no princípio criou Deus…”), passa pelo momento presente que vivia, avança para setenta anos depois (quando prevê a destruição de Jerusalém) e alonga-se por toda a linha do tempo, tempo este que, exatamente por ser uma dimensão supra-humana, foge à nossa compreensão à medida que caminha para o defecho final do Apocalipse.Foi assim que Jesus insistiu em nos ensinar que a vida de qualquer homem não consiste na quantidade de bens que ele possui. Ensinar que, não obstante a responsabilidade que devemos ter perante a vida, nosso olhar deve estar em algo além de nossa existência, vida que, como uma inexpressiva miniatura do parêntese escatológico  e astronômico, é de setenta anos, oitenta, e talvez algum saldo de cansaço, nas palavras de Moisés no Salmo 90.Mas, como vivemos? Entesourando riquezas sobre a Terra. Somente alguns raros habitantes do planeta parecem compreender de verdade o que o Mestre ensina. Igrejas e ministros religiosos tendem a pregar com suas vidas exatamente o oposto. Avarentos. Vaidosos. Tudo fazem para armazenar tesouros sobre a Terra e, assim, esquecem que temos uma breve vida parentética. Em tempos desta pandemia, vamos repensar. No caso de cristãos, tempo de pensar em dobro, pois o Cristo vai voltar para a prestação de contas.

Rui Raiol é escritor
Site: www.ruiraiol.com.br