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Covid-19 e a reinvenção do mundo

Como escrevemos na semana passada, a pandemia Covid-19 é um grande espelho para toda a humanidade. Neste espelho, vemos hoje a imagem de todos nós sobre o globo terrestre, percebemos o movimento que todos estamos fazendo, não há quem escape. Parece-me que todos os sistemas do mundo serão tocados. Assistimos à reinvenção do mundo. Subitamente. Não faz tempo que estávamos comemorando a chegada de 2020, e agora muitos questionam se o terminarão.Historicamente, o mundo tem passado por este tipo de crise ao longo de sua existência. Quando isto acontece, ocorrem mudanças profundas na relação do homem com o homem e deste com o meio.
Tenho a impressão que esta pandemia veio para “atualizar” o mundo. A tecnologia desenvolveu-se bastante e muitos de nós ficamos para trás. Nossa educação ainda é massivamente presencial.
O governo, como um todo, ainda engatinha em matéria de cibernética. Não temos nem mesmo um prontuário médico nacional. O que há de mais avançado no governo, como dissemos terça, é o processo eleitoral, claramente para atender aos interesses de seus políticos. Constatamos, com tristeza, que perdemos milhares de leitos nos últimos anos no Brasil.Igrejas insistem em viver uma ritualística presencial de dois milênios passados. A igreja não ocupou o seu lugar na Internet, falo em evangelizar mesmo, e não em utilizar os meios de comunicação apenas como propaganda de seus cultos. Até mesmo ofertas não atendem ainda ao comando online do presente século. Curiosamente, algumas igrejas evangélicas no Brasil aparecem hoje como o último segmento a compreender a necessidade de fechar portas, ou, se deixá-las abertas, apenas para um papel de visitação, algo quase inexistente na tradição evangélica e que mesmo no segmento católico não se susterá por muito tempo. Paradoxalmente, o sistema religioso comove-se com suas iminentes perdas financeiras. Todavia, o espelho da verdade está querendo refletir a verdadeira imagem da Igreja nesta hora, qual seja, a imagem do despojamento material e da fraternidade. “Chorai com os que choram” é o principal mandamento de Deus nesta hora. É tempo de pensar nos outros e esquecer de nós mesmos, seja pessoalmente, seja institucionalmente.Talvez você pergunte se a reinvenção do mundo purificará a humanidade. E a resposta é: não. O homem  permanecerá esmagadoramente individualista. Embora o desenho geopolítico e humano seja profundamente modificado com esta pandemia, entre os remanescentes permanecerá a exploração do homem pelo homem.
Não precisamos ir até o próximo século para concluirmos isto, basta olhar o reflexo do grande espelho agora mesmo. Não obstante o mérito humanitário encontrado hoje em todas as classes de pessoas, assistimos ao desespero político e religioso.
Como em toda calamidade, haverá abutres, prevalecerá a exploração do homem pelo homem. Neste aspecto, decretação de estados de exceção na economia, com liberação de vultosos orçamentos, ameaça ainda mais o nosso precário sistema de controle interno e externo, que até hoje parece divorciado do fisco.Deste modo, a desgraça do Covid-19  será a glória daqueles que, alheios a qualquer dor humana, amontoarão tesouros corruptíveis para si mesmos e para as suas próximas gerações. Publicado no jornal O Liberal em 24/03/2020
Rui Raiol é escritor
Site: www.ruiraiol.com.br